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Arquivo da tag: filme de amor

Por Rodrigo Grota*

“… O cinema implica numa subversão total de valores, numa desorganização completa da visão, da perspectiva, da lógica. É mais excitante que o fósforo, é mais cativante que o amor”.

Essa frase de Artaud, em meio ao silêncio do mundo, dá um pequeno indício do que sentimos diante de uma obra como Lavoura Arcaica, o filme.

Estive no Festival de Brasília em novembro de 2003. Passeando pelos corredores do Hotel Nacional, percebi uma discussão para poucos. Havia trinta e sete pessoas [sim, eu contei] a ouvir o cineasta Júlio Bressane e seu Filme de Amor. Entrei naquele mundo particular e fiquei fascinado. No dia seguinte, dando seqüência às relações entre cinema e literatura, lá estava um jovem alto, esguio, de semblante sério e mente invlugar: Luiz Fernando Carvalho.

Após a apresentação, percebi que estavam exatamente ao meu lado Raul Cortez e o fotógrafo Walter Carvalho. As luzes se apagaram e tivemos acesso a cerca de quinze minutos do filme. Foi como um relâmpago! Aquelas imagens estavam ainda novas como o fogo. Senti a força de cada imagem me queimando, me convocando para uma relação com o cinema mais forte que a vida.

Após a palestra, me aproximei de Luiz Fernando e solicitei uma breve entrevista para o dia seguinte. Marcamos um horário, ao qual ele cumpriu lealmente:

Se considerarmos a idéia de Foulcault, de que toda a obra de arte é um assassinato cultural, já que a partir do momento em que a idéia está sendo expressa, ela já perde muito daquilo que foi concebido inicialmente, o que é um filme?
O processo de criação de toda obra de arte se dá no pensamento. Há uma impossibilidade, um assassinato ao se tentar alcançar o nível da imaginação. O filme é uma tentativa levada à última conseqüência de atingir esta fabulação criada pela imaginação. É só uma tentativa, cheia de vitória, derrota, no percurso do próprio filme. Concordo integralmente com o Borges. Há um momento em que o produtor tem de arrancar o filme de suas mãos. E neste momento, não se entende mais o filme como um produto cultural, e sim, uma experiência artística travada com o próprio filme. Há um diáogo com a literatura, a possibilidade de se transformar enquanto ser humano a partir daquela experiência estética. Tudo isso me parece muito mais forte do que transformar a realidade, do que essa necessidade de um produto comercial.

O Bressane comentou ontem essas exigências comerciais, explicando como é tola essa “necessidade de um roteiro”.
No início do cinema o roteiro é uma ferramenta para o controle da produção, não um elemento de cunho estético. Servia apenas para organizar o dia de trabalho; saber onde estariam com o gerador; onde se iria rodar a próxima cena; quantos atores e qual ator estaria na próxima cena. Os roteiros expressionistas do começo do século são como poemas mesmo, sem informação técnica, de produção. Vejo essa necessidade de ter um roteiro hoje como uma regra geral reducionista, vulgar, que só atende à caligrafia hegemônica.

Quando você leu Lavoura Arcaica, certamente surgiram em sua mente algumas imagens, assim como ocorre quando lemos qualquer livro. Agora na hora de visualizar o filme há uma diferença. Eu gostaria de discutir justamente essa diferença que há no momento em que você tem a sua primeira relação com o livro, quando você o imagina pela primeira vez, e depois quando você vai contar aquela história por imagens. Se esses dois universos estiverem muito diferentes, isto o aflige?
Primeiro eu gostaria de deixar claro que o Lavoura é fruto de uma vida inteira. Demorou 37 anos para preparar esse filme. Abri um baú muito grande… eu precisei passar por muita coisa, muita reflexão. Precisei passar pela arquitetura, essa expressão dos espaços.., estudei muita história da arte, música, teatro. Lavoura representa na primeira leitura uma possibilidade de reencontro com tudo aquilo que eu gostaria de ver no cinema e não via; tudo o que eu gostaria de ver nos livros e não encontrava; tudo o que eu gostaria de encontrar algum dia. Evidentemente, quando comecei a pensar o filme, pûs a mão nesse baú e tirei tudo que me orientava para o universo do Raduan Nassar. Na verdade, eu peguei uma carona no universo poético do Raduan Nassar; encontrei ressonâncias do meu universo, da minha infância, e me agarrei também à coerência articulada de Raduan – isso ajudou muito para eu não me perder no caminho. A experiência de Raduan Nassar de ter abandonado a literatura no seu segundo livro, por não acreditar mais na literatura, por ela estar sem sentido, sem ressonância para o próprio espírito – tudo isso junto, pra mim, é o Lavoura Arcaica. Como a minha formação é de arquitetura, e eu tenho uma facilidade para o desenho, todas essas etapas foram acompanhadas por rascunhos, esboços, coisas que a leitura deixou dentro de mim, ao ponto de se tornar tradução do que eu estava sentindo… e esses desenhos ajudam as outras pessoas da equipe a procurar melhor o que eu estava sentindo. Rabiscos são só pequenos sentidos, traços para que eu me lembre do que eu havia visto, avistado na leitura. Rabiscos são pontos de ligação. Eu não vou reproduzir o rabisco. Ele não tem a pretensão de ser uma representação ou ser uma referência a ser copiada pelo atores, nos cenários. Trabalho muito com o improviso em todos os processos, os departamentos de uma produção. Em relação ao figurino, eu espero ter o que eu quero do personagem. No dia da prova de roupas, há uma improvisação no camarim. Não tem que ser algo com aquela roupa e ponto final. Como vou expressar o movimento do ator no espaço do filme, algo que dialogue de forma musical com o espaço? Figurino é uma preocupação muito grande pra mim, ele pode enriquecer o gesto dos personagens.

O grande desafio para um cineasta que está em busca de sua própria linguagem é conseguir se relacionar com o público, transmitir uma certa emoção sem se render às regras narrativas que conhecemos. Eu queria saber como você se relaciona com um certo tipo de paradoxo. Por exemplo; por mais que o Tarkovski tenha expressado tudo aquilo que sentia em seus filmes, há um grande obstáculo entre sua obra e o público. Não estou dizendo que isto seja culpa do cineasta. Mas esse mergulho em um universo próprio na maior parte dos casos não é compreendido pelo público. Como saber que não se está caindo em um certo tipo de formalismo excessivo, algo gratuito?
Eu recebo um número imenso de cartas e respondo a todas. Para mim é uma surpresa. São cartas de pessoas que se identificam com o filme de uma maneira muito forte, muito além do que eu poderia esperar. Vêem coisas no Lavoura Arcaica que eu racionalmente não coloquei. E isto é um dos méritos do filme. Transferir-se por uma nova porta, entrar no filme – isto cabe a cada espectador, à imaginação… penetrá-la, abri-la ou não. Se você transpassar uma porta, você entra no filme. Há uma pequena passagem, uma pequena porta, que também pertence à linguagem, já que na maioria dos filme onde o vocabulário é hegemônico essa porta não existe. Eu estava sempre deixando uma porta destrancada, mas ela estará ali, porque as pessoas sentem a passagem entre o mundo real e o mundo da fabulação. Cada vez mais gostaria de ver a reação das pessoas que assistem ao filme. Não sou daqueles diretores que fazem um filme para o público. Faço um filme para as pessoas. Pessoas é diferente de público. Público é aquele grupo de pessoas que o mercado anseia. Pessoas são um grupo de seres humanos que têm memórias, coração, que se comovem com as imagens, e que são todas diferentes entre si. A idéia de um público me sugere uma boiada acéfala, monocórdica, que não me interessa.

Eu sei de algumas preferências suas… A Hora do Lobo, Andrei Rublev, alguns filmes do Visconti, de alguns cineastas do pós-neo-realismo. Como você se relaciona com esses filmes, com essas referências?
Olha, você vai ver muitos filmes importantes, tudo isso será uma grande influência. Mas não se esqueça que o mais importante é o filme da vida. Você é novo ainda, não deve ter filhos, tem? [faço “não” com a cabeça – N.R.] Repare naquele cara na feira, cortando peixe. Perceba como ele corta, o que ele sente. Sinta o cheiro dessas coisas. Veja o nascimento de um filho, as raízes que se rompem. Tudo isso é muito forte. Este é o grande filme. Esses formalismos com algum tempo passam, se não tiverem a força da vida. Você deve se inspirar em si próprio. Na verdade, você deve se apoiar no cinema, no filme da vida, e na literatura. Literatura é essencial. Lembre-se: não existe cineasta melhor que o Dostoievski. Nunca existiu.

*Entrevista realizada em novembro de 2003 durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – nessa época ainda não havia nenhuma cópia do filme “Lavoura Arcaica” disponível no Brasil  - nem em DVD nem em VHS

*Por Rodrigo Grota

Um homem, uma linguagem e um sentimento. No Cine Brasília, em novembro do ano passado (N.R. 2003), um monumento chamado Bressane. A estréia de “Filme de Amor” causou certo frisson, não só entre os críticos, ansioso pelo último experimento, mas entre a platéia, sedenta por cenas ousadas e sensuais. Na última sexta, 28 de maio (N.R. de 2004), o filme chegou ao circuito comercial de São Paulo, ainda sem estréia prevista em Londrina.

Não se pode dizer que Bressane faz um cinema autoral, experimentalista ou underground. Ele não precisa se posicionar em relação a nenhuma dessas convenções para realizar os seus filmes. Bressane sente o mundo a sua maneira, e expõe na tela as suas angústias e meditações acerca de um grande tema, o amor.

Inspirado por diversos ícones da cultura popular e erudita, com um apoio produtivo de cerca de R$ 1,3 milhão, ele nos apresenta um dos filmes seminais quando se propõe um cinema para além de narrativas. Glauber, em seu ocaso, há pouco mais de 20 anos, clamava por uma sinfonia audiovisual – um cinema unicamente de sons e imagens. Seu “A Idade da Terra”, testamento radical até hoje subestimado, oferecia diversas possibilidades de montagem e uma narrativa para além da dramaturgia. Bressane se apóia nessa proposta e expões diversos fragmentos de sua posição diante do mundo, desta realidade que compreende todos os sentimentos e indiferenças humanas.

Não se pode compreender o filme em única sessão. Aliás, essa recente prática humana – a de querer digerir a arte com tempo marcado -, não se encaixa no perfil que Bressane aposta. Ele é um cineasta unicamente preocupado com o seu universo próprio. Como ele mesmo revela, faz filmes para se transformar, para descobrir o que será essa experiência coletiva.

No dia seguinte após a exibição no Festival de Brasília, Bressane contou aos jornalistas que não elabora roteiros: “o roteiro é algo que veio com a indústria, para controlar a produção”; não apresenta personagens aos atores: “o ator tem de ser um ator, somente isto”; não pensa os planos com antecedência: “é algo totalmente intuitivo, espontâneo, acontece na hora. O meu cinema é improviso. Você lê tanto antes, está tão carregado de informações, que chega a um desgaste. Antes, você já fez o filme por diversas vezes na sua cabeça. Depois é só filmar”.

No mesmo festival, em uma palestra sobre literatura e cinema, Bressane contou que descobriu um poeta carioca do começo do século passado que não escrevia para publicar: “Ele escrevia apenas para si mesmo; para melhorar os seus pensamentos”. Essa história, aliás, está no filme, na fala do personagem de Fernando Eiras.

Há toda uma construção visual de “Filme de Amor” que levou o fotógrafo Walter Carvalho a se aprofundar na obra de Balthus (1908-2001), um dos pintores mais sensuais da história, segundo Bressane. Os enquadramentos, a textura da película, a escolha de músicas populares, a composição da trilha original, a desoladora direção de arte – tudo aponta para um filme impecável, com excessos de referências culturais, mas com absoluta depuração estética. Há um Godard nessas citações desmesuradas, um Pasolini no elogio à vida, um Tarkovski no culto ao plano perfeito, e até um Bergman nos diálogos intermináveis. Mas, sobretudo, há um Bressane a filtrar todas as referências e escolhas possíveis para a construção de “um pequeno filme sobre um grande tema”, como ele gosta de definir.

Apostar em uma linguagem própria, em sua maneira de sentir o mundo, é antes de tudo um posicionamento moral diante da ordem das coisas – Bressane está nos alertando que essa pressa por assimilações, essa necessidade tola de sínteses compreensivas ou análises definitivas nos desumaniza. Para sermos fiéis à nossa própria constituição, descontínua e caótica, eternamente fluida, tentemos apenas contemplar Bressane, assim como todas as demais coisas belas. Compreensão ou facilidades narrativas são sintomas de uma doença eternamente recorrente – a necessidade de respostas. Nós, humanos, deveríamos nos ater apenas a uma busca – aquela que só nos traz mais dúvidas e impossibilidades – a busca por nós mesmos.

Este, Bressane; esta, a lição.

*Texto escrito originalmente a 4 de junho de 2004 para a Agência Londrix.
As fotos acima são de Antoine d’Agata, da Magnum Photos.

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