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O cineasta francês Olivier Assayas comenta o seu trabalho mais recente,
Carlos, e se contrapõe a um certo cinema contemporâneo
Por Artur Ianckievicz*

É praticamente impossível encontrar à primeira vista qualquer aspecto da vida de Olivier Assayas que não seja relacionado intimamente ao cinema. Filho do roteirista Jacques Rémy (1911-1981), Assayas trabalhou na revista Cahiers du Cinéma de 1979 a 1985. Esses anos de escrita acerca das imagens renderam uma descrição em forma de carta sobre seus anos de formação endereçada a Alice, filha do teórico Guy Debord – que anos depois se tornou o livro Une adolescence dans l’après-Mai. A profissão do pai foi o estágio seguinte de Olivier, roteirizando filmes de cineastas como André Téchiné, antes de assumir também a direção a partir de 1986 com Désordre.

Sempre ao som do rock (a trilha de um dos mais recentes longas de Olivier foi composta por Thurston Moore) e mesmo quando não está presente enquanto tema, a adolescência jamais deixa de ter destaque nos filmes de Assayas. Não como desajuste, mas sim uma constante tentativa de construir uma identidade própria através da expressão bastante crua de sentimentos, especialmente quando o mundo ao redor não contribui. Já há quase vinte anos reunindo cada vez mais referenciais e fugindo de categorizações, Assayas discorre sobre seu mais novo filme, o cinema francês atual e sobre momentos importantes de sua carreira em entrevista concedida à taturana.

Carlos poderia ser considerado um Os Destinos Sentimentais moderno e em uma escala maior? A documentação da intimidade de um personagem tendo um intenso rearranjo mundial como pano de fundo?
Eu tenho a impressão, consciente ou inconscientemente, de circular há tempos entre o íntimo e o universal. Não tanto do ponto de vista da renovação ou da reinvenção do meu trabalho, mas mais porque me parece que há dentro dessa dialética uma verdade sobre nossa percepção do mundo, simultaneamente instintiva e reflexiva. Para dizer mais simplesmente, existe uma maneira de partilhar com os outros, de uma vez só, uma reflexão sobre nossa história comum, a história de nossas sociedades, e sobre nossas emoções compartilhadas, nossa experiência do humano. Carlos (2010) faz parte, assim como Os Destinos Sentimentais(2000) e demonlover (2002),dos filmes em que eu exploro através da ficção os momentos-chave da história contemporânea. Me parece que Carlos é mais purificado e infinitamente menos psicológico que Les Destinées Sentimentales, no qual eu exploro a relação entre o humano e a história. Aqui, se trata mais de articular os fatos e de mostrar a geopolítica na obra, sem nenhuma subjetividade.

Sete meses de filmagem ao custo de cerca de 14 milhões de euros para um filme de cinco horas e meia de duração. Você teve medo de todos esses superlativos?
Eu, não! O que me deu medo não foram os superlativos, mas o perigo de considerar fazer um filme tão complexo e tão vasto à base de um orçamento tão apertado. É preciso analisar nos termos de três filmes e dividir o orçamento por três: quatro milhões e meio de euros, e ver que se trata de um filme de época, com cenas de ação, uma distribuição de 120 personagens e uma filmagem em nove países. Estávamos constantemente sobre a corda bamba. Nós também tivemos que trabalhar com produtores que não se entendiam e não tinham nenhuma experiência da logística de uma filmagem dessa amplitude. Eu soube de imediato que a filmagem seria difícil também pelo fato de que sua infraestrutura seria disfuncional, que as relações pessoais seriam difíceis, e que a partir daí eu seria obrigado a trabalhar sem rede de segurança.

Nouvelle vague e cinema de papa foram alguns dos termos inventados para nomear o cinema francês do século passado. Quais termos poderiam definir o cinema francês atual e qual é o lugar de seus filmes dentro desse panorama?
Eu acho sua pergunta muito difícil. O cinema francês é dividido em frações e em subfrações que se desprezam quando não se odeiam. Alguns por motivos políticos, outros por motivos estéticos, ou mesmo por questões econômicas. Existe hoje uma indústria que produz essencialmente comédias ou filmes de gênero reunindo um elenco local sem renovações e do qual a produção é mais fraca e mais medíocre do que costumávamos chamar de “cinema de papai” ou de “qualidade francesa”: é mais como um “cinema de vovô” ou a “nova qualidade audiovisual”, e isso é um pouco triste de constatar. Por outro lado, existe um cinema independente bastante ativo, tanto em uma escala mais modesta, e às vezes (não sempre) mais radical, quanto em uma escala mais ambiciosa, com obras que se incumbem de dialogar não com as eternas referências (no fundo terrivelmente convencionais) da cinefilia francesa tais como eles são, imutáveis depois de meio século, mas com o cinema internacional contemporâneo, e com o mundo tal qual ele se transforma, muito rapidamente, ao nosso redor. Com certeza é desse lado que eu me encontro.

Se eu tivesse que dizer o que paralisa, a meu ver, o diálogo e a vitalidade do cinema francês independente, eu diria que se trata de um mal entendido sobre duas palavras. A primeira é o termo político, usado levianamente para definir um cinema que na verdade é sociológico, ou ainda que de maneira rasa social, e que se preocupa geralmente em reproduzir todas as generalidades intelectuais e todos os lugares-comuns midiáticos para, a partir daí, conseguir para si uma moralidade à prova de balas e a legitimidade para dar lições com um descaramento adequadamente diabólico. O segundo termo é radicalismo. Não existe valor simbólico maior, um pouco como o cool na cultura anglo-saxônica contemporânea. Infelizmente esta postura radical se restringe ao campo das idéias e se contenta em ser um gênero, com suas referências, seus códigos, seus lugares-comuns, suas vedetes, seu próprio comunitarismo; e não implica nenhuma injunção de implementar essa exigência tão narcisista em sua vida cotidiana, ou mesmo dentro de sua própria prática.

O quanto as filmagens (e os escritórios de produção, e as relações entre os atores e a equipe) dos filmes de Olivier Assayas se parecem com os do filme Irma Vep?
Felizmente nem tanto assim. Mesmo que o caos seja parte integrante de todas as filmagens, incluindo as mais clássicas. Em cada filme coabitam personalidades contraditórias mantendo relações ambivalentes para a prática do cinema e aos meandros específicos de cada ficção. Eu tento geralmente preservar a liberdade, a imaginação e a improvisação dos técnicos e dos atores. Um filme é habitado por uma energia que deve ser tão capaz de criar quanto possível, e não de destruir, e faz parte do metiê de um diretor canalizá-las no melhor sentido. Eu trabalho há muito tempo com a mesma equipe e isso acabou transformando minhas filmagens em um tipo de autogestão, hostil a toda forma de estrutura autoritária e a todas as convenções ou regras estabelecidas. No entanto, existe sempre um quadro pré-determinado financeiro, prático, logístico. E a obrigação moral, eu diria, de segui-lo.

Comente a experiência de dirigir em 1997 um documentário sobre Hou Hsiao-hsien e a influência que o cinema asiático teve em sua maneira de fazer filmes.
É uma longa história. Eu fiz
HHH (1997) porque já naquela época eu conhecia Hou há 13 anos, tinha visto sua arte se desenvolver, e me parecia que ela entendia a natureza e o funcionamento das coisas segundo uma perspectiva totalmente livre do tipo específico de cinefilia segundo a qual nos aproximamos canonicamente das obras importantes do cinema e que é, na minha compreensão, bastante redutora, quando não simplesmente ofensiva. Em suma, eu queria me aproveitar do meu lugar privilegiado na observação da evolução de Hou para fazer um perfil de cineasta livre desses processos. Um retrato, para resumir, humano. E anti-cinéfilo.

Se você escrevesse uma carta hoje, 24 anos depois da filmagem de Désordre, ela seria muito diferente de Une adolescence dans l’aprés-Mai?
Uma carta para quem, exatamente? Eu não acredito realmente no tempo, ou então em certa imobilidade dele, nem nos estratos superpostos até o abismo que lhe constitui, segundo Proust. Eu quero dizer que a relação que eu posso ter com meu passado se reformula talvez, ou se completa, se aprofunda, mas não muda. E o que eu escrevi em 2002 quando redigi
Une Adolescence dans l’après-Mai anda vale hoje. Como minha relação com seus dois destinatários, Alice e Mia, estão intactas. No entanto, eu creio que a escrita nos faz também progredir em nosso conhecimento sobre si mesmo, e se eu devesse escrever um texto parecido hoje, ele começaria sem dúvida onde o precedente terminou.

Existem muitos pontos de ruptura em sua carreira? Momentos em que você transformou radicalmente sua maneira de fazer filmes?
Une Nouvelle Vie
(1993) é um, L’Eau Froide (1994) também, Irma Vep (1996) igualmente. Acontece que esses três filmes foram feitos em seguida, e eles são três momentos de uma profunda revisão, de uma íntima reinvenção da minha relação com o cinema e com sua prática. O livro que eu escrevi na mesma época sobre o trabalho de Kenneth Anger (Eloge de Kenneth Anger: vraie et fausse magie au cinéma, Cahiers du cinéma, Paris, 1999) fez parte dessa reflexão, como meu documentário sobre Hou Hsiao-hsien (HHH – Un portrait de Hou Hsiao-Hsien, 1997). Depois, eu pude começar a fazer filmes, no caso, Fim de Agosto, Começo de Setembro(1998). Em suma, eu aceitei que a própria idéia de ruptura fazia parte do meu cinema, e de maneira central. Em seguida, eu não parei de aplicá-la.

Para terminar, uma pergunta que você faz a Ingmar Bergman: você pensa que o cinema possa transcrever as partículas que circundam as pessoas?
Eu não as vejo em termos de partículas, mesmo quando compreendo a imagem de Bergman, que é justa e sutil. Estou convencido, contudo, que a câmera registra bem mais que o tangível. Que um plano contém bem mais do que o cineasta que o rodou pensa; e que os fluxos internos dos filmes, e o diálogo subterrâneo que eles mantêm com o consciente e o inconsciente do espectador, correspondem a bem mais que a soma dos elementos que lhes constituem. Em suma, não se sabe nunca o filme que se está fazendo. Tanto do ponto de vista da natureza dos seres que se filma (as
partículas de Bergman), quanto das forças do seu próprio inconsciente.

Filmografia como diretor:

Carlos (idem)– 2010
Horas de Verão (L’Heure d’Été)– 2008
Traição em Hong Kong
(Boarding Gate)– 2007
Cada um com seu Cinema/
episódio (Chacun son Cinéma)– 2007
Paris, te Amo/
episódio (Paris, je t’aime)– 2006
Noise – 2006
Clean (idem)– 2004
Espionagem na Rede (demonlover)– 2002
Os Destinos Sentimentais (Les Desinées Sentimentales)– 2000
Fim de Agosto, Começo de Setembro (Fin Août, Début Septembre)– 1998
Cinéma, de notre temps/
episódio – 1997
Irma Vep (idem)– 1996
Água Fria (L’Eau Froide)– 1994
Une Nouvelle Vie – 1993
Paris s’éveille – 1991
L’enfant de l’hiver – 1989
Désordre – 1986

*Essa entrevista foi publicada originalmente na Revista Taturana 9o corte, lançada a 2 de dezembro de 2011 na noite de abertura da 13a Mostra Londrina de Cinema

Será lançada nessa sexta, dia 2 de dezembro de 2011, a 9ª edição da Revista Taturana, publicação trimestral da Kinoarte voltada para o cinema independente. O lançamento ocorre na noite de abertura da 13ª Mostra Londrina de Cinema, festival mais antigo do Paraná, e que nesse ano exibirá mais de 50 filmes brasileiros de 2 a 8 de dezembro nas salas do Cinema Lumière, no Royal Plaza Shopping, no centro de Londrina.

Criada em 2007, a Revista Taturana tem como objetivo principal aproximar o cinema de outras linguagens, como a fotografia, a literatura e o design. Inicialmente patrocinada pela Petrobras e pelo Fundo Nacional de Cultura, desde 2009 a Revista conta com patrocínio do Prêmio Pontos de Mídia Livre, uma ação do Programa Mais Cultura do MinC, que integra a Agenda Social do Governo Federal. O objetivo da premiação é apoiar iniciativas de comunicação livre existentes no país. Em 2010 a Taturana ficou em 1º lugar entre todas as iniciativas estaduais aprovadas pela Secretaria de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura (SCC-Minc).

Itamar & Assayas

Com tiragem de 2 mil exemplares, periodicidade trimestral e distribuição em festivais de cinema, essa nova edição da revista traz colaboradores internacionais – além das contribuições do cineasta japonês Akira Kurosawa (1910-1998) e do realizador americano Jim Kleist (1941-1992), há também uma entrevista exclusiva com um dos grandes nomes do cinema francês contemporâneo – o diretor Olivier Assayas, autor de “Horas de Verão” e “Carlos”. No contexto do cinema brasileiro contemporâneo o diretor Rogério Velloso conta em primeira pessoa como foi realizar um documentário sobre a figura mítica de Itamar Assumpção (“Daquele Instante em Diante”), músico de vanguarda que iniciou sua carreira em Londrina. Uma reportagem reitera a importância de um clássico do cinema marginal até hoje pouco conhecido – “Prata Palomares”, de André Faria. Há também uma cobertura da 35ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, com destaque para os filmes novos de Werner Herzog, Nuri Bilge Ceylan e Aleksandr Sokúrov,  além das seções tradicionais da revista, como um ensaio fotográfico de Gustavo Gomes e um ensaio visual a partir do filme Hitler 3º Mundo, de José Agripino de Paula. O livro de Richard Schickel, “Conversas com Scorsese”, recentemente lançado no Brasil, ganha uma resenha, enquanto uma nova seção – Errática – tem sua estreia marcada por um breve texto de Antonin Artaud sobre o futuro do cinema. A capa dessa edição foi criada pelo produtor da Kinoarte, Bruno Gehring, em colaboração com a jornalista Juliana Oliveira Leite.

Editada por Artur Ianckievicz, Roberta Takamatsu e Rodrigo Grota, a Revista Taturana 9º Corte contou com coordenação gráfica de Felipe Augusto e Guilherme Gerais, produção de Argel Medeiros e Bruno Gehring, e colaboração de Cesar Felipe Pereira, Diogo Blanco e Guilherme Peraro. A Realização é da Kinoarte em parceria com o Studio Imaje e a Leste Editora, com patrocínio da Secretaria de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura.

Serviço
Lançamento da Revista Taturana n.9
Cinema, literatura, fotografia & design
Dia 02/12 (sexta)
19h – Hall de Entrada dos Cinemas Lumière – Royal Plaza Shopping – Londrina (PR)
Preço – R$ 5,00
site: revistataturana.com
e-mail: revistataturana@gmail.com



A Kinoarte lança nessa terça-feira (24 de agosto de 2010) em São Paulo a sexta edição da revista taturana, publicação trimestral sobre cinema que conta com patrocínio do Ministério da Cultura. O lançamento da revista será a partir das 18 horas na Cinemateca Brasileira em meio à programação do 21º Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, o festival mais importante da América Latina para o formato de curta metragem. Na mesma Cinemateca, às 19h, será exibido o curta Haruo Ohara, nova produção da Kinoarte e que na semana passada recebeu cinco prêmios no 38º Festival de Cinema de Gramado: Melhor Filme (Júri Oficial e Júri Estudantil), Melhor Direção (para Rodrigo Grota), Melhor Fotografia (para Carlos Ebert) e Prêmio de Aquisição do Canal Brasil.

A revista

A taturana foi criada em novembro de 2007 com o objetivo de estimular a reflexão sobre o cinema independente brasileiro, com destaque para o formato de curta metragem. Desde agosto de 2009 a revista tem periodicidade trimestral e conta com uma tiragem de 2 mil exemplares e distribuição gratuita em festivais de cinema – tudo graças ao patrocínio do Ministério da Cultura via edital Pontos de Mídia Livre. Esse patrocínio foi renovado para o biênio 2010-2011, a partir de um edital em que a taturana ficou em 1º lugar entre as 44 iniciativas aprovadas. Editada em sua maior parte em Londrina, a revista conta também com colaboradores de outros Estados e mantém um blog desde junho de 2008: revistataturana.com.

Nessa sexta edição a taturana traz uma entrevista e uma análise do filme Ex-Isto, produção mais recente do realizador mineiro Cao Guimarães; um balanço dos filmes brasileiros apresentados no recente Festival de Gramado; um depoimento da diretora de fotografia Heloisa Passos (Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), um ensaio fotográfico de Anderson Craveiro; um comentário visual sobre o clássico Cangaceiro, de Lima Barreto; um conto exclusivo criado para a taturana pelo escritor Marcos Losnak (editor da revista literária Coyote), a apresentação do documentário Galeria, dirigido pela londrinense Evelyssa Sanches; uma análise da obra da realizadora francesa Claire Denis; e um artigo inédito em português em que o diretor americano D. W. Griffith discute a linguagem do cinema. A revista, que será distribuída de forma gratuita no lançamento, conta com edição de Artur Ianckievicz, Roberta Takamatsu e Rodrigo Grota, projeto gráfico de Felipe Augusto e Guilherme Gerais, produção de Bruno Gehring, e colaboração gráfica de Anderson Craveiro, Bruno Bérgamo, Fábio Augusto, Katy Kakubo e Natália Turini.

O filme

Produzido por Bruno Gehring e estrelado por Marco Hisatomi, o curta Haruo Ohara (PR, fic, cor e p&b, 16 min, HD>35mm, 2010) mostra a vida e a obra do imigrante, agricultor e fotógrafo japonês Haruo Ohara (1909-1999), que ao longo de 50 anos produziu cerca de 20 mil fotos de Londrina e região. O filme, patrocinado pelo Ministério da Cultura, encerra a Trilogia do Esquecimento (também conhecida como Trilogia de Londrina), série sobre a Londrina dos anos 1950 iniciada pelos curtas Satori Uso e Booker Pittman.

Mais informações sobre a revista taturana, o filme Haruo Ohara, e a Kinoarte nos sites revistataturana.com, pausaparaaneblina.com e www.kinoarte.com.br, ou nos telefones (43) 3026 6932 | (11) 3854 5630.

Por Roberta Takamatsu

Desde o início, Věra Chytilová optou por desconstruir e desorientar. De uma cena para outra, e não somente de um filme para outro, ela rompeu, desestruturou, redefiniu. Transpôs em imagens seus questionamentos pessoais, suas verdades íntimas, sem quaisquer tipos de amarras, com mesma liberdade com a qual conduziu sua trajetória pessoal. Dessa forma, todos os adjetivos associados a ela – inovadora, controversa, feminista, transgressora – se não justos, compõem um quadro bastante próximo daquilo que ela apresentou ao longo de sua filmografia.

Ainda na ativa aos 80 anos, Chytilová foi figura de destaque na chamada Czech New Wave, algo como a Nouvelle Vague francesa. Eram os anos de 1963 e 1964, e um grupo de jovens cineastas da FAMU (Escola de Cinema e Televisão da República Tcheca) – dentre eles, Věra e também Milos Forman, Jan Nemec, Jaromil Jires – começou a questionar a estética do Realismo Socialista que vigorava em diversos países do Leste Europeu.

Trilhando um caminho próprio, Chytilová foi definindo sua identidade estética com base em experimentos cinematográficos surrealistas e dadaístas que, mesmo hoje, surpreendem pelo seu apuro técnico, em meio a uma realização basicamente artesanal. Nos primeiros minutos de “Ovoce stromu rajských jíme” (Fruto do Paraíso, co-produção de 1969 com a Bélgica), por exemplo, a harmoniosa e quase matemática justaposição de fotogramas recria a versão de Chytilová para a expulsão de Adão e Eva do paraíso. As imagens, semelhantes a pinturas vivas e pulsantes, são o máximo da criação de seu marido e diretor de fotografia Jaroslav Kucera – que trabalhou, inclusive, com outros expoentes dessa geração New Wave como Milos Forman e Jan Němec. “Eu gostaria de conduzir um experimento em filme no nível atingido anos atrás pela pintura moderna, pela poesia e a música”, afirmou Kucera.

Mas não é apenas de belas imagens, texturas e cores vibrantes que é feito o cinema de Chytilová. Inseridos no contexto político-social de sua época, os filmes são carregados de simbologias críticas. Diante do marasmo, caretice e apatia social, ela nos oferece personagens lúdicos e polêmicos que questionam a ordem imposta. “Se tudo vai mal no mundo, também seremos más”, afirmam as irmãs Maria de “Sedmikrásky” (As Pequenas Margaridas, de 1966).

O passeio por essas imagens, porém, não é fácil ou conclusivo: somos forçados a participar, explorar os significados, buscar as verdades, tentar dar alguma ordem à anarquia que se apresenta diante de nossos olhos. “As pessoas que mais respeito são aquelas que se permitem ter dúvidas, que as têm, e que, mesmo assim, entendem que as portas têm que ser abertas”.

Libertar-se não era apenas um discurso. Era a premissa básica defendida por Chytilová. Na vida: dos conceitos impostos, dos seus próprios preconceitos, das certezas absolutas. No cinema: através dos diálogos improvisados, da utilização de não-atores, das alegorias, da edição recortada e veloz, das imagens em ângulos incomuns, das licenças poéticas permeadas de simbologias corrosivas.

Assim, a cineasta tcheca acreditava que ao mostrar o elemento trágico e apático, reflexo do mundo contemporâneo, fazia sua contribuição para alterá-lo. E nesse sentido, seja pela sua obra, seja pela sua atitude pessoal, Chytilová buscou explorar e ampliar as possibilidades de suas criações. Essa ação concreta foi a mais importante. Foi a que a diferenciou e também o que caracterizou sua natureza humana, irradiando sua força avassaladora em todas as direções. Isso trouxe conseqüências.

Chegava o ano de 1968, e a invasão das tropas soviéticas, no episódio histórico que ficou conhecido como a Primavera de Praga, fez com que muitos artistas se refugiassem em outros países. “Sedmikrásky” recebeu críticas severas e, logo na época de seu lançamento, foi banido da Tchecoslováquia. Věra recebeu a alcunha de cineasta maldita, mas permaneceu no país, tornando-se símbolo de resistência.

O final da Czech New Wave foi, portanto, um fato político. O novo cinema tcheco fora esmagado pela Primavera de Praga, a liberdade acabara soterrada pela censura soviética. No entanto, o mesmo filme pelo qual Věra fora mais criticada e condenada em seu país, “Daises”, trouxe a ela reconhecimento internacional, ganhando o Grande Prêmio no Festival Internacional de Cinema de Bergamo, na Itália.

Os anos 1980 e início dos anos 1990 trouxeram a abertura ao Leste Europeu. A indústria de cinema tcheco acabou se moldando a uma economia de mercado. A censura não existia mais, porém a produção cinematográfica despencou drasticamente com o fim dos subsídios governamentais. Aquilo que restou, tornou-se dependente do estímulo das nações ocidentais – o que se refletiu no fazer cinematográfico: a identidade New Wave se perdia.

A cineasta tcheca voltou ao seu início, passando a lecionar em um dos departamentos da FAMU. Obstinada e polêmica, continuou sua produção concentrando seus esforços no sentido de desmascarar mitos e ilusões. A resistência, seja revolucionária ou não, não destrói o homem. Pelo contrário, ela o revela a si mesmo. Eis o mérito dos filmes de Věra Chytilová.

*Esse texto foi publicado originalmente na revista taturana n.4, de novembro de 2009.
Se você quiser ver a edição impressa do artigo clique aqui.

Por José de Aguiar*

O Idiota da Família é um livro inacabado de três mil paginas que Sartre escreveu sobre a vida de Flaubert. Trabalhou sob o efeito de anfetaminas e ficou cego durante o processo.  Alguém chamou essa obra de monumento à memória, de luta contra o esquecimento, de um desejo vão de permanecer acordado. Sartre queria continuar consciente, queria reviver a literatura francesa através de Flaubert nos seus últimos detalhes, para que nada fosse deixado para trás. Espanta poder ver nesse livro a idéia de que uma obra de arte possa ser um universo, ou, pelo menos, que o artista pretenda que ela seja isso, uma coisa impossível.

Em 1994 foi encontrado pelo executivo da United Artists, Jeff Kleeman, numa mina de sal próximo à cidade de Hutchison, no estado de Kansas (onde estúdios têm mantido seus arquivos há várias décadas), parte de uma obra inacabada, um documento da maior obsessão do diretor americano Stanley Kubrick: o roteiro escrito pelo próprio cineasta sobre a vida de Napoleão Bonaparte.

A obsessão é a necessidade de cumprir uma ação que respeita um princípio, é uma prisão, uma coleção infinita do inútil. Dizia-se que o escritor francês levantava todas as manhãs e escrevia à mão ininterruptamente por pelo menos quatro horas antes de fazer qualquer coisa, às vezes ficava preso em um mesmo assunto durante semanas, mesmo quando não queria. Kubrick, durante as filmagens de “O Iluminado”, pessoalmente desmontava e montava o projetor que usava para conferir o material filmado. Fazia isso a cada quinze dias, apenas para garantir que a imagem gerada por ele seria sempre a mesma. Ele passava duas ou três semanas repetindo o mesmo plano, a mesma ação, duzentas vezes. Garret Brown, o inventor da steadycam, disse que Kubrick definia no set, inclusive, a posição e a distância que cada trailer deveria ter, para que a relação entre os atores respondesse a uma psicologia que favorecesse o filme de uma certa maneira. Ele abria jornais tailandeses no tapete da sala e media com uma régua os anúncios de seus filmes para ter certeza de que as medidas respeitavam os acordos contratuais. A literatura francesa era para Sartre, no seu valor de oficio o que, em Kubrick, é o cinema. Explorar a arte através da vida de um homem foi uma tarefa que os dois levaram às ultimas conseqüências.

Kubrick queria contar a maior história jamais contada pelo cinema, fazer a versão definitiva da saga do Imperador. Ele pré-produziu o filme por dois anos, contratou o maior especialista em Napoleão da Inglaterra, montou uma biblioteca com milhares de livros sobre o assunto. Trezentos desses livros eram biografias do general. Desenvolveu um banco de dados imenso, indexado por assunto, que podia ter as suas informações cruzadas através de um sistema de sinais complexo que compreendia um catálogo de 15 mil fotos de objetos relacionados ao período napoleônico, a vida de Napoleão fichada dia por dia e relacionada a um outro arquivo paralelo dos momentos relevantes da vida das 50 pessoas mais influentes para sua história. Desenvolveu protótipos de figurinos, armas, canhões e equipamentos de todos os exércitos envolvidos nas batalhas, que depois seriam produzidos em massa. Queria contratar 40 mil homens do exército romeno pra reproduzir cenas de batalhas na então Iugoslávia e iria comandar pessoalmente a logística de transporte dessas tropas de um país para o outro, prevendo inclusive as implicações diplomáticas disso.  Estava desenvolvendo o projeto de um laboratório que fosse capaz de dar conta das especificações técnicas exigidas para revelar os negativos sensibilizados com lentes capazes de filmar em condições de baixa exposição de luz e também para desenvolver os efeitos especiais, como o de front projection, que ele estava aprimorando em relação aos de “2001 – Uma Odisséia no Espaço(1968), filme que ele tinha acabado de realizar. Construir um plano geral da Moscou divisada por Napoleão utilizando a mesma técnica que reproduziu o espaço em “2001” era uma de suas ambições.

“Napoleon” acabou sendo cancelado por razões que envolviam problemas com o estúdio e receio de parte dos investidores, mas o fato dele nunca ter retomado o projeto parece falar de algo da natureza da própria relação do cineasta com o filme. Em uma entrevista, muitos anos mais tarde, Kubrick chega a admitir que o projeto era impossível de ser realizado. A dimensão da vida do homem para cujas biografias o número supera as de Jesus Cristo, talvez fosse algo que não pudesse ser contado por quem simplesmente não podia deixar escapar nada.

Toda essa loucura a serviço de um cinema que quase nunca foi digressivo não é um contra-senso. O valor da obra não está contido simplesmente naquilo que nele aparece no resultado, é preciso entender o processo, é preciso entender porque um cinema tão sintético parece ter infinitas camadas, exija tantas revisões, pareça ser tantas coisas.  Sem dúvida, isso também tem na montagem uma explicação, mas a montagem em Kubrick é uma outra coisa, é algo que desvia completamente a questão, porque caminha no sentido inverso desse processo alucinado de percorrer todas as possibilidades do que se quer filmar.

Para Kubrick cada filme é um universo do ponto de vista de sua concepção, e como produto final é a conseqüência racional e específica da escolha do artista que mergulha em um infinito que ele precisa criar antes. Para ele, no set, apenas o ato de filmar é intuitivo, o resto não pode ser. “Napoleon” é uma obra de arte que permanece apenas na possibilidade da pré-existência e por isso é privilegiada no sentido de compreender Kubrick. Irônico pensar que “Barry Lyndon” talvez seja apenas o espólio que surgiu do fracasso de um filme impossível.

A história do cinema pode ser contada de várias maneiras e uma delas é a história do seu fazer. Talvez só os ingênuos concordem, mas Kubrick foi como Aristóteles: precisou percorrer todas as linhas do fazer para descobrir suas obras. Cada filme foi um grande épico sobre a descoberta de uma vocação, cavando sempre mais fundo, percorrendo séries mais longas.

O roteiro escrito por Kubrick para “Napoleon” (1969) pode ser lido gratuitamente no link: http://www.donkeyontheedge.com/i/napoleon.pdf

*Esse texto foi publicado originalmente na revista taturana n.3, de agosto de 2009. se você quiser ver a edição impressa do artigo clique aqui.

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