(uma visão pessoal sobre as filmagens de Paris, Texas)
por Jim Kleist*
Em maio de 1984 a revista nova-iorquina Blood publicou um texto do cineasta americano Jim Kleist (1941-1992) sobre as suas experiências como figurante em produções do final dos anos 70 e começo dos 80. Entre esses relatos estava a sua breve participação nas filmagens de Paris, Texas, clássico de Wenders filmado a partir de um texto de Sam Shepard. Nessa edição da Revista Taturana optamos por publicar apenas os trechos inéditos desse relato que em 2013 irá integrar a coletânea Falso Movimento, livro de Kleist a ser publicado no Brasil pela KinoPress. Os direitos do texto original foram cedidos gentilmente pela Imaginary Pictures – a tradução foi realizada pelo pesquisador londrinense Guilherme Estevan Menezes Peraro em 2006 durante a sua residência em Dallas.
***
San Fernando Road & State Highway 14, San Fernando, California, USA
15 de março, 14:27 PM
Estou sentado fora de um trailer. Boa parte da equipe já almoçou e agora se prepara para rodar a primeira cena da tarde. Robby não gosta de filmar em lugares no qual passamos muito tempo – ele costuma dizer que apenas o movimento direciona o olhar.
JP Morgan Chase Bank – 212 Milam Street, Houston, Texas, USA
22 de março, 06:42 AM
Na primeira página do roteiro pode-se ler:
“Uma paisagem fissurada, vazia, quase lunar – vista a partir de uma visão panorâmica. A câmera paira sobre essa paisagem. À distância, um homem solitário aparece; ele está cruzando esse deserto.
Um falcão pousa sobre um rochedo.
O homem pára, olha para o pássaro.
Então ele bebe as últimas gotas de água de uma larga garrafa de plástico. Ele está vestindo um terno mexicano barato, um boné de beisebol vermelho e sandálias com bandagens em torno. Suas roupas estão empoeiradas e encharcadas de suor. Ele tem caminhado por um bom tempo.
Este é Travis.
Travis joga fora a garrafa de plástico vazia, e continua o seu caminho através de planícies quentes e sombrias que estão diante dele.”
Eu não presenciei essa cena. Não estive em todas as tomadas. Quando cheguei um terço do filme já havia sido rodado. Uma espécie de passado o qual eu não posso compartilhar. Harry no entanto me apresenta esse passado quando conversamos – ele é Travis – não representa. Ele vem de um lugar desconhecido e caminha sem direção. Sem passado, futuro – está apenas a caminho.
Keyhole Klub, Port Arthur, Texas, USA
13 de abril, 12:27 AM
Eu tenho a mesma altura de Harry. O mesmo peso. Não os mesmos olhos. Por isso me filmam de costas…
Eu não conseguiria estar presente. Cada vez mais sinto que interpretar está relacionado a estar presente. Direção segue o caminho inverso: uma ausência.
Doubletree Hotel Houston Downtown – 400 Dallas Street, Houston, Texas, USA
22 de abril, 03:16 AM
Estou sozinho em um hotel. Sozinho em meio aos objetos. Sam Shepard esteve aqui há poucos minutos. Conversamos sobre um amigo em comum, sobre noites em branco. Ele fala de forma educada e lenta – sabe dar peso às frases incompletas e nunca olha exatamente para você. Seu andar sempre o aproxima – ele se posiciona no sofá como uma forma de auto-defesa – suas perguntas não esperam que você as complete – ele está sempre procurando desviar o caminho inicial proposto. Ouvimos uma fita cassete que ele me trouxe com a sua primeira leitura. Na verdade era uma peça que ele havia começado a escrever, e não sabia ainda se poderia encená-la no próximo verão. A personagem era sutilmente próxima a Jane:
“Sabe.. você a encontra no fim da noite, propõe uma caminhada. Você já a conhece há algum tempo. Sempre a encontrou por acaso – ela vagamente apontou a direção… Você a olha da forma mais atenciosa que encontra e sabe que não há nada ali – tudo o que ela fala e… acredite, eu realmente estava ali a ouvir tudo, tudo se apresenta como uma vontade de fuga, não um ponto de partida..”
Central Parking System Garage – 1100 Smith Street, Houston, Texas, USA
23 de abril, 12:38 PM
Wim criou uma cena nova e quer que eu participe. O meu rosto estará oculto – é uma forma de Nastassja ir se aproximando da sua personagem. Eu serei uma espécie de cliente não usual, um cara que chega unicamente disposto a sexo barato mas que aos poucos se revela para a garota de programa. Não posso dizer que estou surpreso – minha vida é algo ligeiramente diferente disso – sempre me aproximei de uma garota a fim de conhecê-la e quando eu percebo estou apenas interessado no que ocorre comigo. É como atravessar estradas longas pelo deserto – você pensa que está em um universo novo, quando na verdade é o mesmo universo interior – você está cada vez mais e mais próximo de casa, os velhos pensamentos e os velhos sentimentos. Há aquele mundo dentro de você que sempre se apresenta – você quer cores novas, uma cicartriz – e acaba caminhando inevitavelmente para dentro.
Interstate 10/45 & U.S. Highway 75/90, Houston, Texas, USA
25 de abril, 09:29 AM
(Sobre Nastassja)
(Sobre tudo o que se pode aprender com o silêncio)
(Sobre toda a tristeza que está nos seus olhos e ela não tenta esconder)
Eu me aproximei de Nastassja como alguém que prefere não ser notado. Me posicionei na direção indicada e tentei não ser sutil. Wim me dizia que esse tipo de personagem só se comunica por meio de disparos incontroláveis – há toda uma vontade de autodisciplina mas que a vida mesmo só ocorre quando não há respiro.
Ela estava com uma camisa preta e uma calça jeans básica. Seu cabelo era simétrico – mas não uma simetria que aprisiona. Nastassja conversava comigo com o objetivo de me intimidar – eu não pude encará-la no início. Me lembrei da minha primeira fuga e só assim improvisei:
“Quando olho pra você não estou realmente olhando pra você.
Quando converso não estou realmente escutando a sua voz.
Eu não estou aqui e você sabe.. Eu só me aproximei novamente porque dessa vez realmente irei me distanciar.
Eu a conheci à noite. Nos encontrávamos no bar do Joe toda quinta após o expediente. Eu não escrevia às quintas – eu ia aos jogos, lembra? Você tinha um pequeno filho de 2 anos chamado Mike. Mike era realmente engraçado – ele não gostava de amarrar o tênis. Talvez não quisesse realmente amarrar. Ele não interrompia nossas conversas – ficava brincando ali ao lado até amanhecer. Em todas as noites que freqüentei a sua casa ali estava Mike – ele nos unia.”
O sr. Wenders nos interrompe:
“Jim, tente contar a mesma coisa mas em frases mais curtas. A mesma cena em 30 segundos”.
Olhei para Robby e ele estava posicionado. Nastassja retomou a posição inicial.
“Eu vim aqui me despedir.
Sempre haverá um vestígio.
Essa cicatriz não será um reencontro – será uma dúvida.
Você vai existir apenas de olhos fechados.”
Wim indicou o corte e me ofereceu um drink. Me disse que para ele um filme é sempre um registro de um sentimento, de uma dor, de um estado emocional. Quando esse universo interior se torna visível ele filma. A minha simples presença, quase não notável, segundo Wim, era o complemento perfeito para o olhar generoso e frágil de Nastassja. Ela era feliz por ter tudo a oferecer, e ao mesmo tempo era muito triste por não ter nada a preservar.
Caminhamos até a entrada do estúdio e o produtor me deu um contra-cheque.
Assinei as documentações e me despedi de Nastassja – ela sorria.
*Texto publicado originalmente na Revista Taturana 9o Corte, lançada em dezembro de 2011 na noite de abertura da 13a Mostra Londrina de Cinema.




