Por Marcos Losnak*
Ele usava uma camiseta com a estampa do Super-Pateta comendo amendoim nas nuvens. Era um garoto gordo com os dedos sujos de tinta e que usava tênis de cadarços desamarrados. Parecia ter em torno de 12 ou 13 anos. Nunca fiquei sabendo sua idade real. Nunca perguntei. Ele nunca falou.
Foi no banheiro do Cine Ouro Verde que cruzei com Nico pela primeira vez. Era uma segunda-feira à tarde, meu dia de folga. Toda segunda-feira eu ia ao cinema. Era mais que uma mania, mais que um hábito. Era quase uma religião. Era simplesmente o melhor dia da semana e o melhor horário para um ser humano assistir a um filme em paz.
Segunda-feira, na sessão das 14 horas, o Ouro Verde era um paraíso deserto. Na sala de exibição você poderia encontrar apenas uns gatos pingados esparramados pelas poltronas. Figuras discretas querendo ver um filme sem alarde. Sem barulhos de latas de refrigerantes estourando, sem chiado de balas, sem nenhum imbecil querendo participar do filme. Você sabia que seria o único sentado numa fileira de poltronas. E ninguém nas três fileiras da frente, ninguém nas três fileiras de trás. Uma espécie de templo escuro e silencioso do sossego.
Nesse dia, eu havia abandonado o filme no meio para dar uma rápida mijada. Ao entrar no banheiro, ouvi um choro contido vindo de uma das divisórias fechadas. Algo próximo de um lamento. Os passos, o ruído do jato na privada, o barulho da água lavando as mãos, todos meus sons abafaram o choro, mas ele estava lá, alheio a tudo, fechado em sua divisória. Eu poderia ter voltado ao filme, voltado ao abrigo da poltrona solitária. Poderia ter ficado na minha, mas achei que alguém poderia estar precisando de ajuda.
- Tudo bem aí?
- Tudo.
- Precisa de alguma ajuda?
- Não, tudo bem.
Enquanto eu enxugava as mãos, a porta da divisória se abriu. Era um garoto envergonhado, de cabeça baixa, com uma camiseta com a imagem do Super-Pateta. Era a primeira vez, em toda a minha vida, que eu via alguém com o Super-Pateta estampado na roupa. Tentei puxar assunto da maneira mais absurda.
- Legal essa camiseta. Onde você comprou?
- Não comprei, fui eu que pintei.
- Legal. O Super-Pateta sempre foi meu super-herói favorito.
- Ninguém dá bola pra ele.
- É, parece que todo mundo baba por aquele babaca do Super-Homem.
Depois desse nosso primeiro encontro, passei a cruzar com Nico quase toda segunda-feira no Ouro Verde. No sofá do saguão, cabisbaixo. No banheiro, chorando. Sempre dentro de uma camiseta estampada com antigos e secundários personagens de histórias em quadrinhos da Disney. Vilões obsoletos como o Mancha Negra, o João Bafo-de-Onça e os Irmãos Metralha.
Apesar de ir constantemente ao cinema, Nico nunca tinha assistido a um filme inteiro. Via apenas pequenos fragmentos. O começo de determinado filme, o meio de outro, o final de um terceiro. A partir desses fragmentos, montava em sua cabeça um filme particular. Com os pequenos elementos que conseguia captar, imaginava o filme completo na tela de sua cabeça.
Aos poucos, em nossos breves encontros no Ouro Verde, Nico foi revelando alguma coisa sobre o assunto. Ele amava cinema, tinha uma verdadeira adoração por filmes. Tinha também, paralelamente, um incontrolável pavor de escuro. Um medo que tumultuava suas noites. Por mais que se esforçasse, não conseguia permanecer num ambiente escuro por muito tempo. Desde pequeno só conseguia dormir com a luz acesa. Quando se via na escuridão, suava frio, tremia, seu corpo entrava em colapso. O pânico se instalava em seus olhos, seus pensamentos entravam em completo desespero.
Vivia uma contradição doentia. Quando as luzes da sala de exibição se apagavam, Nico era invadido pela sensação de paixão pelo cinema. Ao mesmo tempo, imerso na escuridão, era convulsionado pela opressão do medo. Para estar próximo daquilo que amava precisava estar perto daquilo que odiava.
Apesar de viver nessa contradição maluca, Nico não desistia do cinema. Mas também não conseguia superar o medo. Ficava dentro da sala de exibição o tempo suficiente que o medo deixava, até o instante em que o pânico explodia em seu corpo. Corria para o banheiro e chorava. Primeiro de angústia, depois de raiva. Para ver a revelação da luz, ele precisava estar na escuridão. Um fantasma cobria seus olhos. O sol deixava de existir todos os dias, mas sempre voltava. A noite executava caminho semelhante.
Não sei o que passou pela minha cabeça, mas achei que tinha que fazer alguma coisa por Nico. Queria que ele tivesse pelo menos a chance de assistir a um filme inteiro, completo, do começo ao fim, nem que fosse uma única vez. E a única possibilidade seria projetar um filme com as luzes da sala de exibição acesas.
Conversei com o projecionista do Ouro Verde e inventei uma história esfarrapada. Falei que era uma aposta absurda e que precisava saldá-la. Ele não entendeu nada, me olhou como se eu fosse um maluco, mas com uma grana na jogada, tudo ficou certo. Eu jamais poderia revelar o segredo de Nico.
A projeção foi numa segunda-feira de manhã. Na sala de exibição, apenas Nico, o filme e as luzes acesas. Fiquei esperando sentado no sofá do saguão, não queria atrapalhar aquela experiência tão importante para ele.
No final, Nico saiu da sala se arrastando, de cabeça baixa, não havia nenhum sinal de satisfação em seu rosto. Perguntei, ansioso, o que ele tinha achado, se tinha gostado e outras coisas mais. Nico disse apenas uma única frase antes de sair pela porta sem olhar para trás: “Não é cinema, com as luzes acesas, não é cinema”.
*Este conto foi escrito para a Revista Taturana n.6, lançada em agosto de 2010 na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.
