por Rodrigo Grota*
30 anos sem glauber
30 anos sem o cinema
sem o cinema brasileiro
“o que importa em um filme não é aquilo que você vê.
é aquilo que vc não vê”
o poeta do excesso
a voz que traduz o conflito
a coragem e a urgência
a primeira vez que ouvi falar de glauber era muito novo (tinhas uns 11.. 12 anos) e nada sabia do cinema brasileiro. ia passar um ciclo na tv cultura. filmes de glauber rocha. aquele nome me intrigou. glauber? não conheço ninguém com esse nome. vi algumas imagens e não entendi muito. em 96, já com 16 anos e um primeiro roteiro escrito, um professor de literatura do colégio me indicou (a primeira referência, o primeiro conselho). “assista a um filme chamado deus e o diabo na terra do sol. vai te ajudar muito”. eu sorri pois tinha achado o título muito louco e ao mesmo tempo poético. por sorte o filme passou na cultura e eu assisti.
pouco tempo depois ao entrar na faculdade de jornalismo em londrina comecei a participar de um cineclube do curso, o cine cafca. sugeri passarem terra em transe – eu tinha comprado um VHS da coleção da isto é nas bancas. o pessoal do 4o ano riu e disse que não entenderíamos o filme. eu fiz questão de passar e divulguei o embate por todo o curso. começou a rolar um protesto cada vez mais intenso – todos querendo assistir ao filme do glauber. e acabamos por passar o transe.
depois veio o pátio, di, dragão da maldade, idade da terra.
os textos, as entrevistas.
sintra, transeunte.
glauber é múltiplo.
uma espécie de fundador da nossa cimematografia, de uma auto-imagem que até então era tímida, canhestra, pautada pela intuição e conformismo.
a revolução sempre será dissonante
uma sinfonia mítica, repleta de alegorias, um grito pelo futuro
seu cinema se estende como uma plasticidade composta por ruídos
existe a voz
existe o que não se ouve
existe o que se intui
glauber se expressa nos três níveis a um só tempo
filma o passado sempre como uma víscera ainda a arriscar o futuro
não há linguagem pela linguagem – há linguagem pela vida
o sangue de um poeta
artaud, simultaneidade
profecia
eu queria muito ter conhecido glauber
ele não tinha a discrição de um mário peixoto
a aristocracia de um joaquim pedro
a voz suave de leon hirszman
ao lado de sganzerla, mario, tonacci
um dos 4 maiores
ao lado de buñuel, godard, herzog,
um dos eternos rebeldes
mas glauber será sempre a referência central
pois de certa forma o cinema brasileiro se inicia e se encerra ali
um certo afeto, um tom trágico
quando vemos as cenas do enterro, de sua morte.. há exatos 30 anos – são os nossos sonhos que se encerram
os nossos devaneios
um cinema possível
um cinema humano pois expressa a vida
a vida é conflito e do sangue apenas a voz
glauber pedro de andrade rocha
quando vou a bahia penso em sua presença
só de me aproximar de alguém que foi próximo de alguma forma, me sinto bem
cada fotograma tem a sua marca
a marca de uma revolta
a explosão que vem de dentro
ao breve reencontro
sempre
*escrito e publicado a 22 de agosto de 2011


