Ouvir & Descobrir

por Heloisa Passos*

Heloisa Passos é uma das mais respeitadas diretoras de fotografia do cinema brasileiro contemporâneo. Sua filmografia inclui a colaboração com diretores como Marcelo Gomes, Karim Aïnouz, Beto Brant, Caetano Gotardo e Vera Egito, entre outros. Também realizadora, Helô dirigiu os curtas Viva Volta e Osório, desenvolvendo uma estética muito pessoal e que ao mesmo tempo está em constante diálogo com algumas vertentes do cinema contemporâneo.

Dividida entre São Paulo e Curitiba, a diretora de fotografia atendeu ao pedido da revista taturana e comentou seu processo de criação com foco específico em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (possivelmente o melhor longa brasileiro de 2009) e no curta-metragem Areia, realizado em 2008 e que traz uma abordagem extremamente singular e cuidadosa daquilo que compõe nossa memória afetiva.

“Comecei a fotografar filmes no final dos anos 90 – em 1998 passei o ano experimentando a técnica e o desafio de fotografar publicidade, como sócia de uma produtora em Curitiba. Por algum motivo forte e subjetivo, deixei a produtora e fui atrás do desconhecido, do novo, do que poderia naquele momento fazer de mim uma artista.

Desde pequena briguei pela liberdade e posso dizer que a conquistei trabalhando, fazendo filmes. Através da câmera eu descobri um jeito de me expressar, comunicar, expor, gritar e me deixar transbordar. Com o olho no visor eu aprendi a ouvir e foi onde eu descobri o silêncio.

Em 1999 eu tive o privilégio de conhecer o sertão, com Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Eles estavam pesquisando, descobrindo e redescobrindo um lugar que lhes pertence e que eu estava conhecendo – tão árido e tão colorido.

Começamos nossa viagem em Juazeiro do Norte, véspera da Festa de Nossa Senhora das Dores. A Basílica, os vendedores ambulantes, o parque de diversões, os caminhões lotados de fiéis que cruzavam a nossa câmera. Entrei num desses caminhões e deitada na lona daquele pau de arara fui tomada por um mar de cores e sons, até focar uma senhora que estava a centímetros de mim. Fui então hipnotizada. Era o primeiro dia de pesquisa de um filme que até então se chamava CARRANCA DE ACRÍLICO AZUL PISCINA. Hipnotizados, passamos alguns dias em Juazeiro, com muitas conversas à beira da piscina de um hotel de muro verde. Seguimos caminho com nossas câmeras, minha Nikon F4, uma Bolex (16mm), uma Meopta (16mm) e também uma PD150.

Em Campina Grande encontramos uma rua onde ficava a pequena delegacia da cidade, barracas de galinhas vivas, uma fábrica de colchões de chita, alguns botecos, e no meio de muita gente circulando conhecemos Pati, que à noite nos levou a um forró que jamais esquecerei.

De coração aberto, livres, percorremos seis estados (Ceará, Paraíba Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia). A experiência que tive com Karim e Marcelo nas estradas do sertão brasileiro me deram todas as possibilidades de desapego e de olhar a fotografia como uma forma de expressão absolutamente livre. Existe a Helô antes e depois do CARRANCA. Os diretores acreditaram tanto nas imagens que depois de 10 anos as transformaram num roteiro delirante e fizeram de nossa experiência o filme VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO.

Ano passado fomos todos juntos (produtores, diretores, montador) para uma outra viagem, para a estréia mundial do filme no Festival de Veneza. O filme foi finalizado digitalmente e projetado em 2K na sala Darsena, em Veneza.

Em 2004, Marcelo, Karim e eu vivemos algo parecido quando filmamos o carnaval de Olinda e mais tarde essas imagens se transformaram na instalação >Ah, se tudo fosse sempre assim exibida na 26ª Bienal de São Paulo. Em 2009 fiquei surpresa e emocionada quando soube que fui premiada com a melhor fotografia no Festival do Rio com dois longas que realizei de forma tão simples e despojada: VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO e O AMOR SEGUNDO B. SCHIANBERG, de Beto Brant.

É um enorme prazer filmar também com um diretor jovem, que sabe o que quer e pensa a imagem o tempo todo. Caetano Gotardo e eu iniciamos nossas conversas para filmar AREIA sem nenhuma referência; só sabíamos que queríamos quebrar a realidade. Um menino e uma mulher na areia, uma praia ensolarada. Decidimos por uma praia sem muitos elementos, quase desértica. Um menino de calção vermelho e uma mulher de biquíni conversam, trocam sentimentos. Pensei: temos um filme, mas como transformá-lo em algo cinematográfico?

No caminho de desconstruir a realidade, optei por filmar com lentes Ultra Prime, muitos filtros ND e negativo asa 500. Filmar em 35mm com essas lentes trouxe a porosidade da pele (maior definição); os filtros provocaram um desfoque interessante (profundidade de campo); a asa 500 trouxe um grão fino para o filme. Fizemos alguns testes com o negativo Kodak asa 500, expondo sob diferentes formas e revelamos normal e super. Também experimentamos o bleach by pass, que estilizava muito o filme. Não era o que buscávamos. Decidi então expor o filme (asa 500) na asa 250 e revelar no banho a menos um ponto: o grão do filme ficou um veludo.

Tecnicamente tínhamos então dois momentos: o diálogo, ensolarado, e o final do filme, sem brilho. Este final foi filmado no único momento em que nublou – não usei o filtro de correção 85 e inseri um filtro azul muito suave. Marquei a luz do AREIA no tradicional color analyzer do Megacolor, ou seja, a cópia 35mm do filme foi feita através do processo ótico.

AREIA me rendeu a melhor fotografia no Festival de Cinema de Gramado em 2008. Com Caetano fotografei também em 2009 O MENINO JAPONÊS e neste momento está em fase de captação o seu primeiro longa- metragem, que terei o privilégio de fotografar.

Estou escrevendo dentro de um avião, cruzando o céu alaranjado num domingo de inverno e me aproximando do Rio de Janeiro. Sigo amanhã filmando… e que venham outros lindos filmes!

Heloisa Passos
Julho 2010”

*conheça mais sobre a obra de Helô Passos no site www.heloisapassos.com
(texto originalmente publicado pela Revista Taturana n.6 a agosto de 2010)
(as fotos de divulgação do curta Areia são de Beth Gotardo)

This entry was published on novembro 13, 2011 at 11:23 pm. It’s filed under revista taturana and tagged , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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