Por Rodrigo Grota*
O cineasta francês Robert Bresson (1901-1999) costumava dizer que um filme é constituído de imagem, sons e silêncio. A julgar por algumas produções exibidas na 33ª Mostra Internacional de Cinema (realizada em São Paulo entre 23 de outubro e 5 de novembro de 2009) pode-se dizer que nunca Bresson foi tão assimilado pelos cineastas. Isso porque a maior parte dos filmes que deixaram uma impressão mais profunda se apóia nessa possibilidade de expressão tão específica do cinema: o silêncio.
O filme mais célebre, sob essa perspectiva, foi uma espécie de comédia ensaística: “A Religiosa Portuguesa” (2009), do diretor norte-americano (radicado na França) Eugène Green. Trata-se de uma obra metalíngüística: Julie de Hauranne (Leonor Baldaque) é uma jovem atriz francesa que viaja a Lisboa pela primeira vez. Ela irá atuar em um filme baseado nas Cartas Portuguesas, obra escrita pelo francês Guilleragues no século XVII. Ao longo dessa permanência em Portugal, Juie terá uma série de encontros fortuitos, inesperados, o que vai aos poucos despertando uma angústia doce na personagem. O ápice desse sentimento ocorre quando ela encontra uma freira, absolutamente devota, que reza todas as noites na Nossa Senhora do Monte, na colina da Graça. Surge então um diálogo antológico, daqueles em que você até se reposiciona no cinema – uma espécie de profecia e debate sobre o sentido da vida.
A narrativa é toda construída a partir de sutilezas. A primeira qualidade evidente é a leveza com que os personagens são apresentados: a câmera passeia lentamente pelas locações, tudo é muito suave e eterno. A beleza de Leonor Baldaque nos conquista de uma forma estranha: seu rosto preserva um misto de inocência e melancolia. Ela parece viver em uma outra época, pertencer a uma outra ordem de sentimentos. A cada olhar para a câmera, a cada conversa, seu corpo e sua voz nos chegam não como elementos de uma personagem ficcional, e sim como dados diretos de uma verdade poética. Não se pode dizer, no entanto, que a atriz não está interpretando um papel (em “A Religiosa Portuguesa” a coisa se complica, pois Leonor Baldaque interpreta uma atriz). Mas esse filme parece ficar em uma zona intermediária entre o registro de ficção e a abordagem documental, pois há a impressão de que Eugène Green, mais do que realizar uma obra sobre aquilo que lhe interessa na cultura portuguesa, está elaborando um certo comentário, produzindo um ensaio às avessas – um pensamento que nunca se leva a sério. Dessa forma, há diversos momentos realmente muito engraçados, em que os personagens nos conduzem para um universo irreal sob a mais absoluta retidão. Seria arriscado, no entanto, afirmar que “A Religiosa Portuguesa” trata-se apenas de uma comédia. O filme possui diversas camadas, todas relacionadas entre si e distribuídas de uma forma na qual dificilmente compreendemos aquela situação isolada, mas conseguimos atingir uma idéia clara do todo. Algo que diretamente reafirma um aforismo de Bresson: “Tudo foge e se dispersa. Continuamente trazer o todo em um”.
Outro filme a se apoiar em uma narrativa misteriosa, na qual às vezes acompanhamos os personagens como se estivéssemos vivenciando o fato narrado é “35 Doses de Rum” (35 Shots of Rum, 2008), penúltimo longa da realizadora francesa Claire Denis. Alguns críticos chegaram a comentar que nesse filme havia uma clara homenagem a Ozu, outra referência constante no cinema contemporâneo. O que se pode observar, de fato, é que Denis domina completamente o universo dos seus personagens. Ela filma pessoas vivas, reais, anulando o viés psicológico para favorecer o concreto, o corpo, o gesto. É claro que ainda existe uma trama, um conflito dramático, mecanismos que poderiam conduzir o filme para outro caminho. Mas o rigor de Denis, aliado à perfeição de seus intérpretes, nos deixa diante de uma obra serena, sóbria – um cinema que não precisa provar a quê veio. Para ilustrar esse ponto de vista, podemos citar uma seqüência magistral em que os protagonistas são surpreendidos por uma forte chuva e se vêem presos em uma espelunca à espera de um carro. Lionel, pai de Josephine, começa a flertar com uma das garçonetes. Sua filha acaba cedendo aos acessos de um vizinho e finalmente iniciam um romance. Um antigo affair de Lionel fica observando a tudo em meio a uma angústia cada vez mais crescente. Denis constrói essa seqüência praticamente sem diálogos: os personagens se observam, a música ambiente constrói um clima. Há todo um universo ali: sentimentos, desejos, ilusões – tudo expresso de uma forma elegante, concisa, silenciosa. Trata-se de um cinema que privilegia a presença dos atores, suas expressões, sua fisicalidade em detrimento de um possível esquema dramático no qual cada um atuaria como peça de uma engrenagem. É um cinema incomum, que exige atenção e paciência do público, mas que, no fim, o brinda como uma relação sem mediações conclusivas com a vida.
Se Claire Denis se afirma no gesto contido, no diálogo oculto, no silêncio de um olhar, um filme entre as produções nacionais seguiu um caminho oposto, mas com êxito similar: “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Marcelo Gomes e Karim Aînouz. O filme é uma espécie de sobra, de acúmulo de takes e fotos produzido em meio a outras realizações da dupla. No entanto, o que poderia ser apenas um exercício de estilo, um experimento de linguagem, revela-se um filme de uma maturidade plena, sem gestos apelativos.
A história é a de um geólogo: José Renato, que atravessa o sertão para avaliar a viabilidade da construção de um canal a partir do desvio das águas de um rio. O personagem, interpretado por Irandhir Santos, narra o filme ao longo de seus 75 minutos: o que temos é apenas a sua voz, nunca o seu rosto, seu corpo. Conhecemos as suas angústias basicamente a partir de seus relatos. Em alguns momentos, a narrativa visual se complementa ao que está sendo dito pelo personagem. A partir desse encontro (entre imagem e som), o filme ganha peso.
O que surpreende em “Viajo porque preciso…” não é tanto a abordagem escolhida para conduzir a narrativa, mas o sentimento que a dupla de diretores e roteiristas conseguiu imprimir, uma condução sem excessos, livre, que assume riscos e que foge explicitamente da tentação de construir um universo imagético perfeito. Trata-se de um filme que não busca, nem pretende, a imagem idealizada e demonstra muito mais interesse na jornada, no processo, naquilo que está em curso, em desenvolvimento. Aînouz e Gomes não partem do pressuposto de encontrar a imagem tecnicamente impecável. Eles estão interessados naquilo que está incompleto, por se realizar. Essa busca ampara toda a estética do filme – não se trata mais de criar um universo visual a partir de um sentimento ou uma história. O que ocorre aqui é uma espécie de humildade semelhante àquela que era defendida por Rosselini no auge do neo-realismo italiano. O objetivo não era criar uma representação da realidade – e sim, oferecer a realidade de forma direta, sem mediações. Aceitar essa incapacidade talvez seja o grande mérito do filme: um ato de humildade e, ao mesmo tempo, uma busca de autoconhecimento.
Mesmo não sendo um filme com foco centrado no social, “Viajo porque preciso…” consegue oferecer um drama subjetivo (o do geólogo) e apresentar um certo contexto social-econômico sem pretensões de denúncia, tornando o espectador uma espécie de testemunha dessa jornada de um homem em busca de si mesmo. A sensação que temos ao longo da projeção é a de que estamos acompanhando um filme vivo, um organismo dinâmico que ainda não está emoldurado em uma forma finita. Esse filme tem uma rara capacidade de ao mesmo tempo existir fora e dentro da gente. Uma obra de vanguarda que não pretende trazer algo novo, justamente porque o traz.
Essa despretensão também pode ser encontrada no mais recente filme do polonês Andrzej Wajda: “Alga Doce” (Tatarak, 2008), estrelado por Krystyna Janda. A história é baseada em um conto de um dos escritores mais respeitados na Polônia: Jaroslaw Iwaszkiewicz. O filme começa com um monólogo arrepiante: Krystyna relata como vivenciou a morte prematura de seu marido na vida real, o diretor de fotografia Edward Klosinski. O filme se inicia a partir de um elemento extracampo – para além do universo ficcional que será narrado. A personalidade da personagem interpretada por Janda se confunde com a da personagem Marta, uma mulher de meia-idade que se apaixona por um rapaz mais jovem. O que temos, nesse caso, é uma diluição radical do que está sendo representado e daquilo que foi vivenciado. O filme adquire um novo status, criando um pacto diferente com o espectador. Quando olhamos para o rosto de Krystyna, esteja ela chorando ou se entregando a uma paixão tardia, não conseguimos mais diferenciar a personagem da atriz. Existe apenas o drama daquela mulher que perdeu o marido precocemente e que uma vez ou outra nos é apresentada sob uma certa máscara. Mesmo com o filme sendo em sua maior parte ficcional, o que prevalece na mente e na compreensão do espectador é a sua esfera de realidade, a dor relatada sob a voz clara e expressiva de Krystyna Janda.
Outros filmes nessa 33ª Mostra Internacional de Cinema apresentaram propostas estéticas relevantes e que merecem ser discutidas. Filmes como “A 40ª Porta”, longa de estréia de Elchin Musaoglu, do Azerbaijão; o radical “Independência”, do jovem filipino Raya Martin; os brasileiros “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral, “Insolação”, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas, “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, “Belair”, de Bruno Safadi e Noa Bressane, e “A Casa de Sandro”, de Gustavo Beck; o documentário francês “O Inferno de Clouzot”, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea; “Mother”, do sul-coreano Bong Joon-Ho; “Singularidades de uma Rapariga Loura”, do mestre português Manoel de Oliveira; “A Ressureição de Adam”, de Paul Schrader; e “Vício Frenético”, nova incursão de Herzog por Hollywood. O balanço aqui apresentado corresponde tão somente a uma análise parcial, já que dos 424 filmes apresentados, pude ver pouco mais de 30 obras. A impressão é que as fitas mais instigantes – aquelas que ficam em nossa mente, foram os filmes que tornam o espectador um elemento mais ativo, quase um ser diante da presença real de um outro – uma experiência vivenciada por meio de imagens, sons que não poderia ser transmitida por meio de outra linguagem. Algo que apenas o cinema expressa: o silêncio.
*texto publicado originalmente na Revista Taturana n.4 lançada a dezembro de 2009



