Inspirado na obra hermética Catatau, de Leminski, Cao Guimarães apresenta o melhor filme brasileiro de 2010
Por Roberta Takamatsu*
Antes de subir ao palco do 38º Festival de Cinema de Gramado, Cao Guimarães já era ansiosamente aguardado. Burburinhos durante a semana, especulações a respeito de seu novo trabalho, com estreia marcada para a sexta-feira 13, último dia de exibição dos longas-metragens do festival. Foi com o semblante sereno que Ex-Isto, seu novo filme, foi apresentado pelo próprio diretor como sendo um filme difícil. “Tenham paciência. Tentem apenas se deixar levar, emergir”. Um modo de nos preparar? Após a exibição, muitos se aproximavam do diretor mineiro e eram atenciosamente atendidos – a sensação era compartilhada: havíamos todos vivido uma experiência singular, algo que extrapolava a racionalização: uma catarse sensorial, poética, única.
Ex-Isto foi livremente inspirado na obra mais hermética (e também a preferida) do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989), o livro “Catatau” (lançado em 1975). A partir da hipótese-mote “E se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau?”, Leminski nos transporta para uma viagem em que o pai da Filosofia Moderna adentra no universo estranho e particular da Recife de outrora, a Recife dos tempos de Nassau. Na livre adaptação da prosa experimental de Leminski, Cao Guimarães convidou o ator baiano João Miguel.
A proposta de filmar o poeta curitibano faz parte de um projeto do Itaú Cultural intitulado Os Iconoclássicos. Previsto como uma série a ser lançada entre o final deste ano e início do ano que vem fora do circuito comercial, cinco diretores foram convidados para dar sua visão pessoal, por meio de longas metragens, de cinco artistas brasileiros que se destacaram por sua expressividade no cenário cultural do país. Dessa forma, como Cao Guimarães com Leminski, a diretora Carla Gallo dará sua contribuição com um filme sobre o universo de Nelson Leirner, Joel Pizzini o fará com Rogério Sganzerla, Rogério Veloso com Itamar Assumpção e Tadeu Jungle e Elaine César com Zé Celso Martinez.
O primeiro dos cinco filmes, Ex-Isto, é um instante de ruptura poética. Uma viagem sinestésica (sonora, visual) para a qual se deve estar preparado. Abaixo, trechos da entrevista coletiva concedida na manhã após a estréia em Gramado e da conversa com a Taturana após a mesma.
“Catatau”, uma escolha
Escolhi para filmar Leminski o livro “Catatau”, a mais hermética das obras do poeta, aquela em que ele passou 10 anos escrevendo com dedicação quase integral. Lembro do impacto que ela causou em mim quando a li. A investigação profunda da linguagem, os neologismos, os provérbios populares, as diferentes línguas usadas num único livro. Eu o lia em voz alta e não mais que três ou quatro páginas por dia, não agüentava mais que isso. O que busquei fazer com o filme foi voltar ao estágio da pré-fala a que o livro me conduzia. Aquela fase em que a linguagem tem apenas um horizonte de sentido, quando se é conduzido pela musicalidade – o filme busca essa sensação. A possibilidade do derretimento da razão cartesiana.
O incontrolável do caos
Temos diante de nós, o processo de enlouquecimento da razão, o incontrolável de uma situação caótica – da natureza e do próprio homem. É o confronto da razão (“Penso, logo existo”) e do caos, daí o título Ex-Isto (expressão de Leminski e presente em sua obra). A trajetória de uma forma de pensamento – em que o molde do mundo deveria ser repensado através da óptica geométrica de Descartes (sem erros) – em um país caótico. Assim, o espectador é lançado num estado de torpor, numa dilatação rítmica do tempo.
Um não-roteiro, uma montagem sensitiva, contemplação
A filmagem foi rápida. Filmamos em 13 dias, com uma equipe reduzida (6 pessoas), em Recife. Apresentei um argumento, “um pré-roteiro”. Nunca faço roteiros. Acredito que o filme é um processo em que a escritura se faz na montagem. E sempre tive medo de adaptações literárias: literatura é uma coisa e cinema é outra. O cinema não pode ser um ornamento da linguagem. (…) O filme apresenta uma multiplicidade de gêneros, ele muda o tempo todo, deslocando o espectador o tempo todo. A montagem foi bastante sensitiva. Buscamos um filme propositalmente alegórico, anti-naturalista, de contemplação de um tempo futuro. (…) Trabalhei na montagem sozinho, internado. Mas quando já estava impregnado do material, precisei de um olhar de fora. Alguém que pudesse ver coisas que eu já não poderia mais devido ao tempo em que estava em contato com o material…Chamei então Marcelo Gomes (cineasta)… uma parceria que vem desde de 2003, 2004, lá em BH, quando ele estava realizando a montagem do Cinema, Aspirinas e Urubus. Temos uma identidade cinéfila.
João Miguel e o desnudamento do ser
Eu e João Miguel somos amigos. Para Ex-Isto, fiz um convite para que ele fosse comigo para o sítio do meu pai. Lá ele leu o Catatau e entrou num estado de transe. João Miguel é um ator que possui o “prazer de fazer”. Ele me perguntava do roteiro, de como compor um personagem sem roteiro, sem falas… Ele nunca tinha feito um filme sem roteiro. E eu não faço roteiros. Eu disse: você é um filósofo, então leia e pense, pense, pense… (…) As falas em off foram gravadas logo após os 13 dias de filmagem, quando João estava impregnado de Descartes, Leminski, do filme… quando tinha atingido o desnudamento do ser.
Canon 5D na plasticidade da imagem
Usamos a câmera Canon 5D, lente 1.4. Eu mesmo filmei, utilizando a câmera como um olho, num balé entre corpos. Nas circunstâncias de hoje, do ano de 2010, a evolução tecnológica permitiu o surgimento de algo que não podíamos ter antes em vídeo, como a questão da profundidade, a versatilidade… esse novo contexto (tecnológico) trouxe consequências radicais ao filme.
Do antes
Cada filme é uma busca radicalmente diferente, um negativo do filme anterior. Não é serialismo. Rua de Mão Dupla é diferente de Andarilho, que é diferente de Acidente.
*Essa entrevista foi publicada originalmente na Revista Taturana n.6, lançada em agosto de 2010 na Cinemateca Brasileira durante o 21o Curta Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo. As fotos desse post são de Alexandre Baxter.


