da ordem do cao(s)


Por Rodrigo Grota*

Não ver para ver. Ver para não ver. Para não ver é que estou vendo.
Ver é fabular.
Sol. Luz. Renascido.

Algumas ideias expressas pela obra Catatau, do escritor paranaense Paulo Leminski, estão tão próximas do universo estético de Cao Guimarães que parecem ter sido escritas pelo próprio realizador mineiro. Esses pontos em comum não estão presentes apenas em seu mais recente filme, Ex-Isto. Desde os seus primeiros trabalhos, ainda no final dos anos 80, Cao apresenta essa linguagem que parte de uma específica realidade ordenada para só então potencializar o caos. É como se em princípio, em um primeiro olhar, toda a realidade aparente fosse organizada, e só após uma nova relação de apreensão do mundo (que não se limita a uma mediação racional) pudéssemos encontrar uma dimensão mais orgânica, estabelecida por uma originária ordem do instável.

Nascido em Belo Horizonte, em 1965, com formação em Jornalismo e Filosofia, Cao vem construído uma obra única no restrito universo do cinema brasileiro contemporâneo. Um dos seus primeiros curtas, Otto – Eu Sou Um Outro (1998) (co-dirigido por Lucas Bambozzi), já apresentava possibilidades narrativas que recusam o naturalismo. Filmes mais ensaísticos como Sopro (2000), Hypnosis (2001), Nanofania (2003) e Concerto para Clorofila (2005) partem de uma rigorosa fissura do real não permitindo mais a identificação imediata ou precisa do objeto a ser filmado. Aliás, não há mais importância na relação que se estabelece entre sujeito e objeto nesses curtas – ambos se fundem em um só corpo expressivo: o filme.

Em seus longas, principalmente em Acidente (2006) e Andarilho (2007), temos uma linguagem mais próxima do documentário, mas que nunca se limita às convenções desse gênero. Figuras tradicionais como a do entrevistado e a do personagem real podem ser encontradas nesses filmes, mas há também uma espécie de camada oculta a dizer que aquela apreensão do real não está apenas no visível, no que pode ser ouvido, tateado pela nossa percepção. Há sempre vestígios de uma irrealidade que ora é acentuada pela trilha sonora, ora pela abordagem visual. Cao não está preocupado em informar o seu espectador – ele é um escultor de formas, de tempos narrativos – o cineasta ordena o mundo para que ele possa reencontrar novamente sua textura embrionária – algo que não pode ser dissociado, analisado, compreendido muito menos retido como mera representação do real. O que importa nesses filmes é sempre o que está ausente – uma espécie de fora de quadro conceitual – que não se limita ao extracampo da imagem.

Essas opções, que aproximam a obra de Cao da estética defendida pelo realizador francês Robert Bresson (1901-1999), estão presentes em Ex-Isto, mas não se configuram como elementos centrais dessa narrativa. Pois o que realmente diferencia esse último filme das produções anteriores do cineasta mineiro é que a gênese do projeto é uma ideia ficcional. Tudo em Ex-Isto é inspirado na obra e no livro Catatau, de Leminski. Cao não está mais partindo do real para criar uma fabulação e sim está encontrando possibilidades de linguagem em meio a um universo poético para potencializar ao máximo a ordenação do caos.

Uma das principais características da linguagem de Cao, a observação, o registro que contempla e amplia a dimensão do que está sendo filmado, também está em Ex-Isto. No curta Da Janela do Meu Quarto (2004), por exemplo, Cao registrava em super-8 uma espécie de duelo infantil entre dois garotos em uma pequena cidade do interior de Minas. Singela e ao mesmo tempo muito específica, aquela imagem trazia todo um universo de recordações, de sentimentos que não se traduzem de forma imediata, que não se revelam em palavras. Ex-Isto oferece essa mesma potência. Apesar de o filme conter trechos narrativos, e se apoiar em um personagem ficcional muito concreto – o pensador francês René Descartes (1596-1650), haverá sempre uma espécie de tradução imperfeita do real – construção visual que não se baseia na idéia de reprodução do mundo tal qual ele é e sim na criação de um outro mundo, com uma relação espaço-tempo singular.

No que se refere à direção de atores, Ex-Isto novamente se aproxima da estética de Bresson. Não estamos diante de um ator, de um intérprete – e sim de um modelo, de uma presença real. João Miguel não está a interpretar René Descartes – como diz o próprio Cao, João Miguel é a um só tempo Descartes, Leminski, Cao e si mesmo.

Possivelmente Ex-Isto será o filme de Cao Guimarães que melhor irá se comunicar com o público, já que o carisma do ator João Miguel e a voz em off que conduz todo o percurso do filme são elementos de imediata comunicação com quem assiste. Por outro lado, essa aventura de sons e imagens empreendida por Cao e sua reduzida equipe poderá ser também uma das adaptações mais fiéis ao universo do poeta paranaense. Não se trata aqui de criar uma adaptação de Catatau, ou uma ilustração visual de determinado universo poético. Cao Guimarães está criando junto, lado a lado, correndo os mesmos ricos e compartilhando das mesmas dificuldades e limitações do escritor curitibano.

Admirador de Andrea Tonacci e Abbas Kiarostami, parceiro de Marcelo Gomes e do coletivo O Grivo, possivelmente influenciado por Apichatpong Weerasethakul e Naomi Kawase, o realizador mineiro ocupa um espaço único quando pensamos no cinema que se faz hoje no Brasil. Seus filmes não apresentam temas – os desenvolvem; não se relacionam com o real – criam uma realidade em si; não só dilata o tempo como esculpe unidades temporais específicas. Aparentemente dividido entre as artes plásticas, a fotografia e o cinema, Cao promove uma união indissolúvel entre essas três linguagens e cria o que ele reconhece como um processo artístico que não é serial, repetitivo. A cada filme uma nova proposta, um novo desafio. O filme pelo prazer de filmar, de estar entre amigos. A tecnologia a serviço da estética – a lente 1.4 da Canon 5D Mark II possibilitando o que antes era uma ideia conceitual – o foco e o desfoque, o estar ali e não estar, o ver e não ver.

Esse modo de produção, que reuniu uma equipe de 6 pessoas a filmar por 13 dias em Alagoas, no Amapá, em Recife e em Brasília, é claramente a melhor solução de um cinema que se quer independente no Brasil. O cineasta chinês Jia Zhang-ke, em entrevista à revista Cinética há alguns anos, dizia que não se pode mais dissociar a estética de um filme de sua logística de produção. Filmes emblemáticos como Limite (1931), de Mario Peixoto, e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, foram feitos por equipes reduzidas. O cinema mais interessante que se faz no Brasil atualmente, que inclui produções de Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Rio Grande do Sul, parte de grupos de amigos que conversam entre si e filmam sobretudo pelo prazer de filmar.

É o que ocorre em Ex-Isto e em boa parte da filmografia de Cao. Sua obra não é voltada para um cinema que ser quer autoral, independente ou com pretensões poéticas – trata-se de um trabalho autêntico de um realizador singular que há 20 anos vem construindo uma poética continuamente em fluxo, em processo, em constante auto-descoberta. Um cinema que busca na vida a possibilidade de uma incerteza a não a certeza de uma impossibilidade. Um cinema que busca a ordem no caos e corporifica a multiplicidade do instante. Um cinema imensamente pessoal e por isso mesmo realista – como se apenas no imaginário reinasse o absoluto.

FILMOGRAFIA
(como diretor)

CURTAS
1998_Otto, Eu Sou Um Outro (20 min)
1999_The Eyeland (11 min)
2000_Between – Inventário de Pequenas Mortes (10 min)
2000_Sopro (5 min)
2001_Hypnosis (7 min)
2001_Word World (8 min)
2002_Coletivo (3 min)
2002_Volta ao Mundo em Algumas Páginas (15 min)
2003_Aula de Anatomia (5 min)
2003_Nanofania (3 min)
2004_Da Janela do Meu Quarto (5 min)
2005_Concerto para Clorofila (7 min)
2006_Atrás dos Olhos de Oaxaca (8 min)
2006_Quarta-Feira de Cinzas (6 min)
2007_Peiote (4 min)
2007_Sin Peso (7 min)
2008_Memória (5 min)
2008_El Pintor Tira el Cine a La Basura (5 min)
2008_O Sonho da Casa Própria (15 min)

MÉDIA
2008_Mestres da Gambiarra (DV, 30 min)

LONGAS
2001_O Fim do Sem-Fim (92 min)
2002_Rua de Mão Dupla (75 min)
2004_A Alma do Osso (74 min)
2006_Acidente (72 min)
2006_Andarilho (80 min)
2010_Ex-Isto (86 min)

*Texto publicado originalmente na Revista Taturana n. 6, lançada em agosto de 2010 na Cinemateca Brasileira durante o 21o Curta Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo. As fotos desse post são de Alexandre Baxter.

This entry was published on janeiro 12, 2011 at 1:24 pm. It’s filed under revista taturana and tagged , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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