Por Roberta Takamatsu
Veio da República Tcheca o prêmio concedido esse ano pela Cinéfondation, categoria do Festival de Cannes voltada para escolas de cinema e realizadores jovens. Com “Baba”, a jovem Zuzana Špidlová se junta a seus conterrâneos que fizeram história em Cannes – como Vojtěch Jasný, que no período de 1959-1969 ganhou três prêmios em diversas categorias – e também na própria história do cinema tcheco, que teve grande relevância na época da New Wave Tcheca com figuras de destaque como Milos Forman e Vera Chytilová.
Para se ter uma idéia, o último filme dessa nacionalidade a ser nomeado para a sessão principal em Cannes foi “Faust” de Jan Švankmajer, em 1994. Na época, a animação de Švankmajer concorria na seleção da mostra Un Certain Regard. Quinze anos se passaram até que “Baba”, criado como projeto de graduação pelos estudantes da FAMU (Escola de Cinema e Televisão da República Tcheca) surgisse. O filme de 21 minutos conta a história de Veronika, adolescente que anseia por uma liberdade que não pode ter por se sentir presa à obrigação de cuidar de sua avó enferma, a “Baba” do título. Foi com essa narrativa que traz o frescor e os anseios da adolescência contrastando com um clima tenso beirando a crueldade, que Zuzana ganhou o prêmio máximo da Cinéfondation, além de ter garantido recursos e estréia oficial de seu próximo filme em Cannes no ano que vem.
Abaixo segue a conversa que a Revista Taturana teve, por email, com a diretora de “Baba”, Zuzana Špidlová:
Taturana: “Baba” é um filme maduro por lidar com questões como a culpa e o egoísmo de forma muito intensa, e com a peculiaridade desses sentimentos estarem inseridos no universo jovem, adolescente. Li em um artigo que você aprecia literatura, em especial a literatura russa. Essa literatura te influenciou de alguma forma nesse projeto em especial?
Zuzana Špidlová: Em “Baba” eu busquei falar sobre uma adolescente, que não está madura o suficiente (e, no fundo, quem está?) para lidar com uma grande responsabilidade (cuidar de sua avó enferma). Ela tem apenas um desejo: adoraria ser como qualquer outro adolescente – livre e irresponsável – mas, devido à sua situação familiar, isso não é possível. Sim, há a culpa e o egoísmo… Eu não diria que haja um livro específico que tenha me influenciado enquanto escrevia o roteiro de “Baba”, mas eu admiro muito o trabalho de Dostoievski, principalmente Crime e Castigo, que, de alguma maneira, trata dos mesmos assuntos.
Taturana: A última vez que um representante tcheco foi para Cannes concorrendo na competição oficial foi em 1994 com Jan Svankmajer. Mas a República Tcheca viveu momentos sublimes na cinematografia mundial – por exemplo, com cineastas como Milos Forman e o experimentalismo da geração New Wave da década de 60. Chytilova, por exemplo, foi considerada uma cineasta a frente de seu tempo. A espera foi longa, e então veio “Baba”. Há algum diálogo entre o seu filme e essa geração?
Zuzana: Eu realmente amo e admiro os filmes de Milos Forman (especialmente aqueles que ele fez na antiga Tchecoslováquia) por suas motivações e métodos, pelos filmes memoráveis que fez. No que diz respeito a Vera Chytilova, ela dirige um dos departamentos da FAMU, onde eu estou estudando, e embora eu não possa dizer que sou influenciada diretamente pelos filmes de Chytilova, posso afirmar que reconheço seu espírito livre e jovem e a coragem que tem ao tratar de temas difíceis no cinema. Tenho que dizer que aprecio também os filmes dos irmãos Dardenne, sua abordagem em relação aos atores, os temas fortes que buscam retratar. Por essas mesmas razões, também sou muito inspirada por Michael Haneke e pelos trabalhos do diretor Nuri Bilge Ceylan.
Taturana: Há atualmente no Brasil, principalmente entre os novos diretores de curta-metragem, a tendência pela busca de uma identidade, que é, muitas vezes, entendida como experimentação de linguagens. “Baba”, por sua vez, possui uma narrativa forte, permeada por um clima de tensão. De que maneira você buscou trabalhar a linguagem em “Baba”? Houve a preocupação especificamente com a linguagem mesmo num filme que prioriza tanto a narrativa?
Zuzana: Eu apenas queria fazer um filme com uma linguagem cinematográfica tão simples quanto fosse possível, mas no final, admito que pra mim foi muito difícil manter essa “simplicidade”.
Taturana: Acredito que o que mais me impressionou em “Baba” foi o quanto você conseguiu tornar a personagem adolescente tão próxima do público – com as contradições típicas desse período – e também inserir elementos que a tornam cruel, desumana. Você poderia comentar um pouco sobre a construção dessa personagem? Você também trabalhou com não-atores, correto? Poderia comentar também essa escolha?
Zuzana: Para criar essa personagem, eu busquei o meu passado, as minhas experiências pessoais. Tentei recorrer, da maneira mais sincera possível, às lembranças, sensações e sentimentos da minha própria adolescência. Ou melhor dizendo, de como ela seria, como poderia ter sido. As pesquisas que fiz em asilos e hospitais enquanto escrevia o roteiro de “Baba” se restringiram a detalhes práticos que eram necessários para tornar o filme o mais real e verdadeiro quanto fosse possível. Quanto ao trabalho com não-atores, honestamente, eu não o planejei. Precisava de uma mulher em torno de 85 anos e um garoto de 14 anos e não encontrei atores profissionais que se encaixassem nesses perfis. Acabei recorrendo a não-atores. No final, foi uma experiência muito positiva para mim, havia uma autenticidade única. Isso me encorajou a continuar trabalhando com atores que não fossem profissionais.
Taturana: Para uma diretora iniciante que acabou de ganhar Cannes e que teve seu filme apresentado em países tão distantes quanto o Brasil, como você avalia esse primeiro trabalho?
Zuzana: É complicado para mim fazer essa avaliação sobre meu trabalho, mas posso afirmar que vejo muitos erros e falhas em “Baba” que não gostaria que se repetissem no meu próximo filme. Por outro lado, estou contente e orgulhosa por este filme ter atingido o alcance que atingiu, por ter tocado, de alguma forma, pessoas de diferentes partes do mundo – esse é o melhor prêmio para uma cineasta iniciante.
(Esse texto foi publicado originalmente na Revista Taturana n.4, lançada em novembro de 2009 na noite de abertura da 11a Mostra Londrina de Cinema)

