Fragilidade e lascívia em miss Gardner

Por Rodrigo Grota*

“Emprego um tempo considerável em matar os animais para não ter de me matar”
Ernest Hemingway

Henry King (1886-1982) não foi um grande cineasta – “homem de estúdio”, dizem.
Ernest Hemingway
foi premiado e criticado – “pura economia de linguagem”, garantem.
E Ava Gardner (1922-1990) não foi uma grande intérprete – “era uma musa”, definem.

Com esses três pressupostos, seria imprudente e certamente arriscado acreditarmos que uma suposta união deste trio daria “grandes coisa” (como se dizia antigamente). Mas…, nos dois filmes que os uniu, há uma certa fórmula mágica a nos seduzir de maneira avassaladora.

Tanto em The Sun Also Rises (E Agora Brilha o Sol, EUA, 1957) como em The Snows of Kilimanjaro (As Neves do Kilimanjaro, EUA, 1952) temos duas adaptações de obras de Hemingway em que brilham a sensualidade de miss Gardner, os tormentos do escritor e a discrição do cineasta. São, portanto, filmes antiliterários, que não se apóiam em frases pretensamente profundas, com “mensagens”, ou sequer construções rebuscadas. Seguindo princípios de Hemingway, tentam “dizer com simplicidade as coisas simples”. Os dois filmes, aliás, tratam de períodos próximos.

Em The Sun Also Rises, Tyrone Power é Barnes, um escritor na Paris pós 1a Guerra Mundial (1914-1918), um dos integrantes da famosa “geração perdida” – termo que Gertrude Stein encontrou para definir aqueles que “não possuíam nenhum ideal e repudiavam o mundo em que nasceram”. Ava Gardner é a adorável Brett, uma enfermeira que Barnes conheceu durante a guerra e que invariavelmente se aproxima do escritor. Um tormento paira sobre a mente do nosso herói – após uma das batalhas, apesar de sobreviver, Barnes tornou-se incapaz para o amor. Hemingway escrevia sobre a sua vida com algumas pinceladas a mais (ou a menos). Nos anos 20, ele integrava a trupe de Picasso, Matisse, Braque e Jean Cocteau, que promoviam festas e mais festas em Paris. A figura que Brett sintetiza em The Sun Also Rises está muito próxima à personagem Cynthia Green, que enfeitiça o escritor (e ex-jornalista, como todo bom escritor deve ser!) Harry Street (Gregory Peck) em The Snows of Kilimanjaro: ela é lasciva, pérfida, imprevisível, inconstante, docemente ingênua e frágil – como toda mulher encantadora deve ser. Ava Gardner interpreta esta personagem e não há como negar – o papel foi feito para ela.

Se em The Sun Also Rises o tema era a impotência física, em The Snows of Kilimanjaro temos uma incapacidade afetiva. Em certo momento, o personagem de Gregory Peck descreve Cynthia: “Ela é encantadora, mas é só eu fechar os olhos que ela vai embora”. Essa figura célebre criada por Hemingway se encaixa perfeitamente no rosto impiedoso de miss Gardner. Para o escritor, aliás, a atriz tinha “a essência da feminilidade que as outras mulheres não sabem passar para os homens”. Gardner era magnífica – se sua melhor virtude não era interpretar, ela chegou a surpreender em alguns filmes como Mogambo (1953), de John Ford, The Barefoot Contessa (1954), de Joseph L. Mankiewicz, e Show Boat (1951), de George Sidney. Assim como Gene Tierney e Kim Novak, integrava um grupo de atrizes que possuíam um charme tão natural que nada mais precisava ser feito. Era realmente uma deusa, e homens como Frank Sinatra, Artie Shaw e Mickey Rooney, todos do show business (e também seus ex-maridos), sabia como venerá-la.

Uma semelhança entre a atriz e as suas personagens era a tendência constante de se apaixonar por toureiros. Em três filmes ocorre tal fuga: os dois adaptados de Hemingway, e em A Condessa Descalça – em que Gardner interpreta uma espanhola que se torna rainha em Hollywood. Contraposta a esta sensualidade irrecusável, há uma fragilidade, uma devoção realmente verdadeira que as personagens de Gardner sentem pelos seus amados. Mas daí surge uma pequena e cruel dúvida: por quê ela foge tanto, se ela os ama? Poderíamos nesse ponto apelar para uma fala de Hamlet – justamente aquela em que ele olha para sua mãe e diz: “Inconstância, teu nome é mulher” (alguns traduzem por “frivolidade”).

Seria talvez mais proveitosa uma breve referência ao alemão que por muito tempo tentou entender as mulheres – sim, o velho Nietzsche (1844-1900). Em Assim Falou Zaratustra, ele encara a relação homem-mulher como um desafio masculino. A mulher representaria o melhor objeto a ser conquistado – a caça mais perigosa. Uma vez abatida, perde o interesse. Essa idéia é reforçada em alguns aforismos de A Gaia Ciência, em que Nietzsche encontra na mulher uma tendência natural em servir ao homem. Este, se servir à mulher, se tornará seu escravo. Esta dualidade feminina – querer ser desejada e servir ao mesmo tempo – constrói a ambigüidade das personagens de Ava Gardner com perfeição. Gregory Peck, um pouco antes do primeiro beijo na atriz, diz suavemente: “Você tem a imagem de uma mulher inatingível”. Meses depois, durante caças na África, ele já observa com mais atenção alguns rinocerontes, que não possuem nem de longe a fina estampa de sra. Gardner.

O tipo encarnado pela atriz exige uma atenção constante, um apego eterno, algo a que um “bom” homem não está acostumado. Entretanto, como resistir à sensualidade de uma figura dessas? Como não reconhecer uma pureza nas lágrimas que miss Gardner nos apresenta em todos os seus filmes? Como não se levar por um labirinto que lhe dará o prazer extremo ao lado da eterna certeza de que nunca haverá uma saída? Gardner representa exatamente isto: o maior dos encantos e a pior das tragédias. Uma vez ao seu lado, você irá se contaminar pela angústia que une os dois personagens de Hemingway nesses filmes – eles são incapazes de se entregar, pois Gardner está acima deles, é um perigo que nenhum homem pode ousar correr.

Sob uma análise objetiva, pode-se afirmar com convicção que estes dois filmes não representam muita coisa. Henry King era um excelente diretor, mas não transcendia as normas do estúdio. Em The Snows of Kilimanjaro, aliás, a Fox chegou até a mudar o final, pois no livro, a personagem de Harry Street morre. Mas há Ava Gardner, aquela que Cocteau chegou a descrever como “o animal mais lindo do mundo”. E diante de seu olhar, compreendemos com mais clareza o dilema que Hemingway sintetizou na frase que precede esta crítica. A angústia de nunca possuir uma Gardner talvez torne um homem o maior caçador do mundo. Mas esta impossibilidade, por outro lado, também nos compele para uma sutil condição: eternamente amaremos odiá-la. Eternamente.

*Texto publicado originalmente pela Agência Londrix a 24 de janeiro de 2005 aqui.

This entry was published on julho 25, 2010 at 12:02 am. It’s filed under filmes, revista taturana and tagged , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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