*Por Carlos Ebert, ABC
Rodrigo Grota certamente tem um prazer especial em propor desafios. Tanto de ordem estética quanto técnica. Já no primeiro encontro, ao me convidar para cinematografar Satori Uso (2007), percebi seu conhecimento cinematográfico, raro num jovem da sua idade, e o gosto apurado por uma cinematografia que pesquisa e busca novas imagens paradigmáticas. Para o Satori, as referências, mais do que cinematográficas, eram fotográfica (Haruo Ohara) e pictóricas (Edward Hopper). De Hopper eu já admirava e até copiara as sombras longas das horas iniciais e finais do dia e os enquadramentos com um ou dois personagens “soltos no espaço”. Haruo eu não conhecia, e Rodrigo me municiou com farto material, avisando que algum dia iríamos nos aventurar pelo artista e pela obra do grande fotógrafo nipo-londrinense.
Eu passara por Londrina lá pelos anos 70, filmando um documentário. Encantara-me com a bruma densa que só se dissipava lá pelas 8, 9 horas. Voltar àquela terra vermelha para um registro em P&B era simultaneamente um desafio e um encantamento. O fato do orçamento nos levar para uma captação digital em alta definição não me assustou nem um pouco. Minha experiência na área era positiva (com o curta de 2003, Carolina, de Jefferson De), mas o fato de ser P&B mudava muita coisa e exigia uma outra aproximação. De cara, dei uma de Hernán Cortez, que ao chegar ao México mandou queimar toda a frota para que ninguém pensasse em voltar para a Espanha. Assim, eliminei totalmente a saturação cromática e gravei tudo em P&B. Não haveria volta possível. Num segundo momento, me preocupei com a latitude do HD. As fotos de Ohara, que eram a referência, tinham 12 ou mais stops de latitude e a minha Sony Z1 tinha 7 e 1/2… Cheguei à conclusão que o que tinha a fazer era “trabalhar à antiga”, como fazia quando filmava em Ektachrome 64: iluminar mais para fazer a cena caber na latitude do suporte. Levei meu fiel escudeiro de mais de 20 anos, o gaffer Cicero “Padim” Barbosa, com todos os seus rebatedores, espelhos, butterflies etc. Alugamos um HMI PAR de 1200W, com aquele desconto da D. Edina (diretora geral da Quanta), alguns fresnéis e fomos à luta.
Trabalhar com um diretor que sabe o que quer, mas que deixa com o fotógrafo o como fazer é muito bom. Os resultados, para mim, se fazem sentir. Mexi um pouco no recorte da imagem com um filtrinho fog 1/2, fiz um set-up que aproveitava toda a latitude da câmera e parti para experimentar com segurança, o que pode parecer uma contradição em termos, mas é o que os grandes cinematógrafos – ao menos os que eu considero e respeito como tal, fazem. A estratégia no digital, diferentemente do fotoquímico, é captar o máximo de informação que o equipamento permite, e deixar o descarte e os ajustes para a finalização. Quem não faz isso corre o risco de jogar fora a criança com a água do banho…
No meio do filme existia uma seqüência em cores. Aí fui para um “technicolor à brasileira”, com bastante saturação, polarização dos céus e da vegetação e um aumento moderado no detalhe. O resultado contrastou com o resto de filme em P&B e proporcionou impacto para os hai-kais do Satori.
O filme é uma alegoria fake sobre alguém que só existiu na cabeça de seu criador. Isso me abriu portas para a invenção, mas pedia uma coerência que sem o balizamento da realidade era trabalhoso encontrar. Qualquer deslize, e a “suspension of disbelief” iria por água abaixo. Para me amarrar mais em referências cinematográficas, fiz a movimentação de câmera ser lenta, quase pesada, como se estivéssemos filmando com uma Mitchell de 70 Kg numa cabeça Moy. Explorei ao máximo o foco seletivo que uma câmera com sensores de 1/3 de polegada poderia me proporcionar. O que não era muito, mas que com os truques renascentistas de colocar objetos em primeiro plano para que, desfocados, aumentassem impressão subjetiva foco no sujeito, ficou bastante bom.
O filme me proporcionou um segundo Kikito em Gramado em 2007, e o Prêmio ABC de Cinematografia, outorgado pelos colegas de profissão, o que é muito gratificante. Houve quem achasse seriamente que o filme havia sido rodado em 35mm. O fetiche da técnica…
Com a parceria afinada, veio o convite para fazer o Booker Pittman (2008). Aí as referências eram as fotos do Robert Frank e os fotógrafos de jazz William Claxton e Herman Leonard. O talento do Zé Nietzsche (José de Aguiar, diretor de arte) presenteou-nos com um cabaret da Londrina dos anos 50, em que o espírito do músico do Alabama podia transitar “free as a Bird… “.
Novamente a nossa recriação causou perplexidade e confusão. Organizadores de uma mostra queriam que assinalássemos o que era filmado por nós e o que era “arquivo”. Existe maior elogio em se fazendo um filme de época?!? Em Booker, ainda que preservando ao máximo a latitude do suporte, na finalização deixei a mão pesar um pouco mais no contraste. Existia uma névoa difusa, não só no cabaret (fumaça), mas em muitas externas (bruma), o que permitiu aumentar o contraste preservando um layer de cinza alto sobre toda a imagem. O filme tinha também um elenco feminino deslumbrante, nos inspirando a criar imagens de grande charme, beleza e sedução.
O terceiro filme da trilogia, Haruo Ohara (2010), era também, no entender de todos da equipe, o mais difícil. Agora a referência eram as fotografias de um mestre que havia captado a região com sensibilidade e técnica apuradíssimas. Fomos juntos visitar uma mostra dele na Avenida Paulista. Olhamos tudo como quem faz da retina um CCD; gravando na mídia dos nossos neurônios corticais aquela beleza toda, na tentativa dela nos impregnar para depois transcriá-la. Se deu certo ou não, ainda é cedo para dizer. Gosto demais do que vi dos três cortes que me apresentaram. Rodrigo, como sempre, esgota as possibilidades antes de fechar a edição. A poesia visual surge mimetizando as fotos de Ohara. Novamente um insert colorido, dessa vez monocromático, potencializa o P&B. A captação é agora num formato melhor (XDCAM EX 35 Mb/s). Agnóstico empedernido, faço um esforço para ser tomado e possuído pelo olhar do Mestre. Preto, branco e todos os cinzas que conseguir gravar. Fomos por experiências ousadas com reflexos, retro-projeção, câmera vibratória etc. Buscamos todo o tempo vislumbrar a inspiração que ele imprimiu em seus negativos e cópias. Será que conseguimos? Passo a palavra ao público.
*Esse texto foi publicado originalmente na revista taturana n.5, de abril de 2010.
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