Por Daniela Bueno
O mundo acordou menor e mais triste na sexta-feira (18/06/2010): morreu, aos 87 anos, o escritor português José Saramago. O homem que subverteu a língua portuguesa e que ousou a dizer não ao ponto final e aos sistemas engessados da gramática. O homem que abriu possibilidades para a língua e para a vida. O amante de Fernando Pessoa. O ateu convicto (que mais amor demonstrou ao mundo que qualquer cristão que conheci em toda vida). O grande defensor dos Palestinos, tornando-se até persona non grata em Israel por conta de seu ativismo à causa palestina. O homem que lutou e denunciou em suas obras as mazelas sociais do mundo e o problema existencial humano, revelando-se um homem frágil, covarde e sem máscaras. O velho comunista, apaixonado pelo marxismo, o corajoso que gritava aos quatro cantos a desigualdade social, o feroz defensor dos direitos humanos: realmente, um humanista! Saramago foi a minha maior referência para a construção de valores pessoais, seja na ideologia de esquerda, na poesia ou na vida acadêmica.
Saramago cumpriu seu papel enquanto vivo e nos deixou uma obra rica e lindíssima com 16 romances publicados, peças teatrais, artigos para jornais e, nos últimos anos, apesar de não gostar muito da linguagem rápida dos blogs e da internet, aderiu à “blogosfera”, nos presenteando com crônicas, artigos, poesia e, principalmente, muita reflexão. Saramago era autodidata e dizia que o homem mais sábio que conheceu na vida era analfabeto: seu avô! A ele dedicou seu Prêmio Nobel de literatura (1997).
O Homem de Lanzorate (Ilhas Canárias), que, ao acordar, olhava de frente para a África. Aquele que nunca se calou diante das barbáries do mundo. Darwinista, encarava a morte como um processo natural da vida. Sempre dizia que a natureza era finita, que todo ciclo tinha seu tempo e que a morte não passava de uma invenção de Deus ou das religiões para dominar a sociedade. Acredito que ele se preparava para a morte e que partiu como queria: suavemente.
Além de um grande intelectual e escritor, o mundo perdeu um grande ativista dos direitos humanos. Do ponto vista social ou político, é mais uma voz que se vai e que nos deixa órfãos de ideologia, pois era uma das raras vozes que ainda combatia as ideias liberais dominantes no mundo.
Uma vez tendo lido toda a sua obra, não terei mais a esperança de ver um livro novo do velho comunista nas livrarias. A ideia de não ter mais seus livros dilacera meu coração. Era sempre uma espera ansiosa e agora fica a sensação de uma obra que se interrompeu no meio… Como diria Drumond: E agora, José? O mundo fica menor, mais apertado sem suas palavras. Sua obra permanecerá em nossa memória, tornando-se patrimônio da humanidade. Que Saramago continue vivo lutando pela boa literatura, pela liberdade e por um mundo com menos injustiças que este nosso.
Comentários para ler Saramago
Para ler Saramago, é necessário despir-se de preconceitos, do conservadorismo e estar aberto ao novo, pois sua estética literária é inovadora e pode assustar leitores resistentes à mudança. Ele quase não usava letras maiúsculas; a pontuação é aberta, quase nunca finalizando uma ideia (propositalmente, pois, no fundo, não há ideia finalizada); os diálogos são seguidos, sem travessões. Ou seja, ele é pautado por amplos silêncios gritantes. É uma leitura para se fazer com tempo, não rapidamente. O texto do Saramago é recheado de intertextualidade, o que nos faz querer descobrir outros textos, outros autores e até outro mundo – ainda que sem sair do lugar. E, talvez, por ser cheio deste dialogismo (aqui como sinônimo de intertexto), seus textos são considerados difíceis. Saramago é o homem que ousou dizer não às convenções.
Daniela Bueno é Funcionária Pública – formada em Comunicação Social pela UEL e Pós-graduanda em Linguística pela UNESP de Assis.


Que lindo o texto…comovente!!! Prova que boas obras e um ótimo escritor, vai alem da morte, ficara para sempre em nossas lembranças, e suas obras serão lidas por todas gerações. parabéns Dani
Daniela,
Lindas as suas palavras…realmente a perda de Saramago nos deixará um triste vazio de boas leituras….