*Tradução Artur Ianckievicz
A criação artística sempre se manifestou pra mim como uma vontade de comer. Eu constatei essa necessidade com um certo prazer, mas, ao longo da minha vida consciente, nunca me perguntei porque essa fome apareceu e exigiu satisfação. Atualmente, já que nesses últimos tempos ela tende a se diminuir e se transformar em alguma outra coisa, eu sinto a necessidade imperiosa de pesquisar a causa da minha atividade artística.
Me recordo de ter sentido, desde minha infância mais tenra, a necessidade de mostrar meus talentos: destreza ao desenho, ciência do arremesso da bola contra uma parede, primeiras misturas.
Me lembro de ter tido uma vontade louca de chamar a atenção dos adultos para essas manifestações da minha presença neste mundo. Eu sempre achava que não tinha conseguido despertar suficientemente o interesse de outrem. Isso porque, já que a realidade não era mais suficiente, comecei a fantasiar, a distrair as pessoas da minha idade com a narração das minhas façanhas secretas. Foram enormes mentiras que irremediavelmente se chocaram contra o prosaico ceticismo do meu meio. Finalmente eu renunciei a viver em comunidade e guardei pra mim meu universo de fantasmas. O garoto possuído pela imaginação e pelo desejo de estabelecer um contato rapidamente se metamorfoseou em um sonhador acordado ferido, desconfiado e astuto.
Mas alguém que sonha acordado não pode ser artista em outro lugar além dos seus sonhos.
A necessidade de ser ouvido, de se comunicar, de viver no calor de uma comunidade persistia. Quanto mais os portões da solidão se fechavam sobre mim, mais essa necessidade aumentava.
Ficou então bastante evidente que eu deveria terminar por me exprimir de maneira cinematográfica. Ela me dava a possibilidade de me fazer entender em uma linguagem que superava as palavras as quais eu estava privado, a música que eu não dominava, a pintura – a qual me era indiferente. Eu podia de repente me comunicar com outrem com a ajuda de uma língua que, literalmente, é falada de alma a alma, em expressões que se subtraem de maneira quase voluptuosa sob controle do intelecto.
Com toda essa fome acumulada ao longo da minha juventude, eu me lancei sobre o cinema e durante vinte anos, sem pausa e com uma espécie de raiva, eu forjei sonhos, experiências sensoriais, caprichos, crises histéricas, neuroses, espasmos religiosos e puras mentiras.
Minha fome sempre se renovou. Dinheiro, glória e sucesso me pegaram de surpresa, mas não tiveram na verdade nenhuma conseqüência em meu desenvolvimento.
Do que precede, não seria necessário deduzir que eu subestimo o que realizei por aventura. Creio que isso teve, e talvez tenha, sua importância. Me tranqüiliza o fato de poder olhar o passado sob uma luz nova e menos romântica. A arte enquanto auto-satisfação pode naturalmente ter sua importância – e acima de tudo para o próprio artista.
Hoje a situação é menos complexa, menos cativante e, sobretudo, menos sedutora.
Sendo assim, se eu quiser ser totalmente sincero, sinto que a arte (e não somente a arte cinematográfica) é insignificante.
Literatura, pintura, música, cinema e teatro se engendram e nascem delas mesmas. Novas mutações, novas combinações se formam e desaparecem. O movimento parece, visto de fora, dotado de uma vida intensa – obstinação grandiosa que coloca artistas projetando para si mesmos e para um público cada vez mais distraído as imagens de um mundo que sequer se importa mais com suas opiniões. Em algumas raras ocasiões, o artista é punido, a arte considerada perigosa e merecedora ser dirigida ou sufocada por nós. De modo geral, contudo, a arte é livre, insolente, irresponsável e como eu dizia: o movimento é intenso, quase febril. Faz pensar, me parece em uma pele de serpente cheia de formigas. A serpente está morta já faz tempo, devorada, privada de seu veneno; mas a pele se move, inflada por um ardor vital.
Hoje, se eu chego à conclusão que sou uma dessas formigas, fico constrangido de me perguntar se existe qualquer razão de prosseguir com minha atividade. A resposta é afirmativa. Embora eu creia que o teatro é uma querida velha caprichosa que já passou de seus melhores dias. Embora eu ache, e vários outros acham comigo, o western mais estimulante que um Antonioni ou um Bergman. Ainda que a nova música nos dê a impressão de querer nos sufocar em uma atmosfera matematicamente rarefeita, ainda que a pintura e a escultura se esterilizem e se empalideçam, vítimas de sua própria liberdade petrificadora. Embora a literatura esteja transformada em uma enorme rocha de palavras sem significado profundo nem conseqüência perigosa.
Existem poetas que nunca escreverão versos na medida em que eles moldam sua existência à maneira de um poema, atores que nunca se produzirão, mas interpretam sua vida como tantos dramas singulares. Existem pintores que não pintarão jamais, uma vez que eles fecham os olhos e, ao abrigo das pálpebras cerradas, imaginam as mais puras obras-primas. Existem cineastas que vivem seus filmes e nunca desperdiçarão seu talento para lhe doar a materialidade, realidade.
Da mesma maneira, acho que em nossos dias, os homens podem recusar o teatro, já que vivem no seio de um drama gigantesco que não cessa de estourar em tragédias locais. Eles não têm nenhuma necessidade de música, visto que a cada instante seus tímpanos são agredidos por violentos furacões sonoros, que alcançam e ultrapassam a intensidade tolerável. Não têm nenhuma necessidade de poesia, já que no interior da nova configuração do mundo eles se tornam animais com funções determinadas, sujeitos a problemas de metabolismo sem dúvida interessantes, mas inexploráveis de um ponto de vista poético.
O homem (tanto eu quanto outrem) se tornou livre, terrivelmente, vertiginosamente livre. A religião e a arte são mantidas em suas vidas somente por uma convenção em relação ao passado, uma solicitude benevolente para os cidadãos cada vez mais nervosos da civilização do lazer.
Falo sem parar de um ponto de vista subjetivo. Espero que eu esteja convencido que os outros tenham uma opinião mais nuançada e (segundo eles) mais objetiva. Se agora considero o alcance dessa desolação e apesar de tudo me obstino a proclamar que quero prosseguir o exercício de minha arte, a razão é muito simples. (Abstraio o aspecto puramente material do problema).
Essa razão se chama curiosidade. Uma curiosidade intolerável, sem fronteiras, jamais satisfeita, sempre renovada, que me empurra adiante, que não me deixa descansar nunca, que compensa totalmente essa fome de comunicação de tempos passados.
Me sinto como se depois de uma longa detenção, tivesse saído da cadeia e mergulhado nessa vida trovejante, agitada, despedaçante. Sou assaltado por uma curiosidade sem freios. Eu anoto, observo, abro os olhos, tudo é irreal, fantástico, aterrorizante ou ridículo. Eu pego no ar um grão de poeira, talvez seja um filme – que importância tem esse grão: nenhuma, mas esse grão de poeira me interessa, a mim, portanto é um filme. Eu caminho com essa partícula capturada pelas minhas próprias mãos e cuido dela alegremente ou melancolicamente. Eu abro caminho no meio das outras formigas, nós realizamos um trabalho colossal. A pele da serpente se move.
Isso, e nada além disso, é a minha verdade. Não obrigo ninguém a enxergar nela a sua verdade, e como consolo por toda a eternidade, é evidentemente muito pouco. Mas como apoio a uma atividade artística por alguns anos que virão, é amplamente suficiente, ao menos para mim.
Ser artista para seu próprio prazer não é sempre especialmente agradável. Mas apresenta uma vantagem extraordinária: o artista compartilha seu destino com cada ser vivo que, de sua parte, só vive igualmente para seu próprio prazer. Segundo todas as probabilidades, o conjunto termina por constituir uma fraternidade bastante ampla, que, dessa maneira, existe pela graça de um contato puramente egoísta sobre a terra quente e suja, sob um céu vazio e frio. – Ingmar BERGMAN.
(*Traduzido do sueco para o francês por Kerestin L. Bitsch)
(*Publicado originalmente na revista Cahiers Du Cinéma – número 188 – março de 1967)




