Por André Simões
O papo é o mesmo há uns cinco anos: “Woody Allen faz seu melhor filme desde [...]”, “Woody retoma a boa forma”, “Embora ainda não seja seu melhor, Allen surpreende com vigor há muito não visto” – a ladainha da crítica vem tão certa quanto o filme anual do autor.
Discordo a priori, seja qual for o caso, dessa avaliação renitente, por um motivo bem simples: Woody Allen nunca perdeu forma nenhuma para precisar recuperar, e cada um de seus filmes, alguns melhores, outros piores, nunca ficou aquém do interessante (e aqui dou uma maneirada no adjetivo para disfarçar a paixão).
A análise também muito batida de que o excesso de produtividade estaria afetando sua qualidade é ainda mais infeliz, chegando a ser estúpida: o cineasta sempre trabalhou freneticamente, qualquer juízo que se possa fazer a respeito de uma hipotética oscilação criativa não passa pelo fato de entregar religiosamente um filme por ano. Ademais, pelo modo como repete a frase de Karl Marx (já a usou em seus roteiros, para fins cômicos, mais de uma vez e constantemente a cita em entrevistas) “A quantidade influencia a qualidade”, é fácil perceber: workaholic notório, simplesmente não há outro jeito em que acredite ser possível trabalhar.
Isso tudo posto, é forçoso admitir que em “Vicky Cristina Barcelona”, seu mais recente filme, ainda em cartaz no Brasil, há algo de diferente em relação a seus últimos trabalhos. Neste novo século, Woody vinha alternando comédias ligeiras (“Dirigindo no Escuro”, “Scoop”) e dramas pesados, à moda européia (“Ponto Final”, “O Sonho de Cassandra”), além do caso singular de usar os dois gêneros em um único filme sem misturá-los (“Melinda e Melinda”).
Tratados os estilos como estanques, não se obtinha o potencial máximo de Allen: em seus maiores clássicos (“Annie Hall”, “Manhattan”, “Hannah e Suas Irmãs”, nenhum dos três entre os favoritos do próprio diretor), o que há são filmes de difícil classificação, comédias românticas tristes (??), comédias dramáticas (??). Se há algo que o cineasta nova-iorquino provou, e fez disso seu maior legado ao cinema, é a possibilidade de se unirem a leveza da linguagem cômica e a profundidade reflexiva do drama. “Vicky Cristina Barcelona” consegue isso com louvor, retratando, numa visão muito pessimista, em que nem o convencionalismo nem a liberdade sexual trazem satisfação, a dificuldade da realização amorosa. Ainda assim, tem o poder de arrancar risos da desgraçada condição humana.
As qualidades usuais dos trabalhos de Allen também continuam lá: fotografia belíssima, ajudada pelas belezas próprias de Barcelona (apontar como “clichê turístico” destacar as obras de Gaudí na cidade é uma crítica preguiçosa, afinal, o filme explora a subjetividade de personagens turistas!), planos-seqüência longos e funcionais, diálogos espirituosos, trilha sonora de antiquado bom gosto e atuações irretocáveis. Aliás, nesse sentido, mais do que os badalados Javier Bardem, Penélope Cruz e Scarlett Johansson, quem salta aos olhos é Patricia Clarkson, fazendo uma coadjuvante que rouba as cenas quando aparece – Woody poderia voltar a dar mais atenção aos atores de meia idade; tomara seja em seu próximo filme, no qual estão escalados como protagonistas a mesma Patricia Clarkson e Larry David, criador da série “Seinfeld”.
Mesmo para os que se queixam da falta de novidades em sua obra conservadora, o filme pode ser surpreendente: além do propalado beijo lésbico entre Penélope Cruz e Scarlett Johansson, há recursos técnicos nunca tentados antes em sua direção: transições de seqüência com fechamento e abertura de íris, alteração de plano e contra-plano com fades e até uma cena em slow motion (mal pude acreditar quando vi).
E se todo o palavreado não for suficiente para convencer que “Vicky Cristina Barcelona” vale a pena ser visto, resta se render e admitir que… Woody Allen fez seu melhor filme desde “Desconstruindo Harry”.

Acho que não é “clichê turístico” é comercial mesmo. Quantas vezes se ouve Barcelona no filme? Quanto ele ganhou pelo comercial? Imperdoável! E o filme é um filminho.
Mas revistataturana é muito bom.