Por Rodrigo Grota
O cinema é, entre as artes, possivelmente a mais sexual. Isso porque cada take, cada close, cada plano chega a nós espectadores como um gesto sedutor: um olhar de soslaio, discreto, que realça o não visto e oferece uma promessa de felicidade.
Esse ato freqüentemente é físico: sentimos o filme em sua brutalidade sonora e visual quase como o gesto de tocar um corpo. Quando surge uma cumplicidade entre esse corpo fílmico e nós, espectadores, somos tomados por uma reação física autônoma, que beira o descontrole. O cinema passa a ser dessa forma uma experiência física, um passar por entre camadas, nas quais nos deparamos com nuances de dramaticidade e mistério.
Esse prólogo se justifica principalmente diante de um filme como “Drag me to Hell” (EUA, Arrasta-me para o Inferno, 99 min, 2009), de Sam Raimi, cineasta mais conhecido do grande público após a franquia “Spider-Man”. O filme se apresenta como um organismo vivo, repleto de tensões e invariáveis cíclicas a partir das quais o único objetivo é perseguir o espectador assim como a protagonista Christine Brown (Alison Lohman) é perturbada ao longo de todo o filme pelo demônio Lamia. Trata-se de um tour de force, encarado por Sam Raimi como uma volta ao gênero que o consagrou nos anos 80, principalmente por filmes como “The Evil Dead” (A Morte do Demônio, 1981), “Evid Dead II” (Uma Noite Alucinante, 1987) e “Army of Darkness” (Uma Noite Alucinante 3, 1992).
“Drag me to Hell” é, sob esse ponto de vista, um típico filme de gênero, no qual as regras já estão estabelecidas desde o princípio: existe um universo fantástico regulado por leis próprias – cabe a você espectador aceitar tal restrição e mergulhar em uma narrativa fabular que flerta com a realidade apenas como reforço dramático, nunca como base para a linguagem do filme. Mas de onde vem essa força narrativa expressa por Raimi, já que o filme não traz um correspondente com a realidade tão sólido assim? É o puro prazer da linguagem, a sensação próxima de se passar por uma experiência de sons e imagens que chega ao espectador de forma direta, sem exigir uma compreensão racional da fábula, muito menos uma análise psicológica ou semiótica. Trata-se de um cinema simples e expressivo: símbolos que são nada mais que símbolos, mas que organizados por uma mente criativa e consciente de sua linguagem como a de Raimi, chegam a nós como algo vivo, dinâmico, pulsante.
Outro fato a surpreender em um filme como “Drag me to Hell” é que não existe ali a possibilidade do inesperado: o espectador já sabe desde o início que irá passar por uma série de embates que o aterrorizam, e isso não diminui em nada o prazer de assistir ao filme. Exibido no formato 2.35:1, em 35mm, o filme se reveste de um caráter analógico que potencializa a experiência vivida como algo realmente concreto, na qual podemos sentir a troca de um rolo para outro, o ligeiro desfoque em algumas cenas – enfim, a imperfeição da película que torna todo o processo de vivenciar o filme uma experiência mais real.
Esse perfeito domínio da técnica apresentado por Raimi também nos faz pensar em um tipo de cinema que se diz sensorial e cada vez mais se torna presente em festivais e ciclos alternativos: mais vale um filme de gênero, bem articulado, e que chega a nós como experiência a ser vivida, do que um não raro experimentalismo frouxo, vazio, que aposta sua solidez em uma linguagem que talvez não exigisse uma abordagem não-narrativa. Essa problemática, no entanto, seria tema para outro artigo.

