La Belle Personne, Christophe Honoré

Por Rodrigo Grota

Um filme poderia ser apenas um rosto.
Essa máxima que cineastas como Griffith, Godard e Ophuls seguiram à risca é a primeira evidência que se encontra em “A Bela Junie” (La Belle Personne, 2008), de Christophe Honoré.
A referência, nesse caso, se torna mais ampla quando pensamos nas relações que esse filme tem com um clássico de Valerio Zurlini: “A Primeira Noite de Tranquilidade”.

Assim como no filme italiano, em “Junie”, o que realmente interessa está nos olhares, nos corpos, em tudo que não pode ser verbalizado. Há um mistério no olhar dissimulado de Léa Seydoux: uma dor que não reconhecemos, um passado que não será reapresentado. Garrel é como Delon em Zurlini: sofre de uma paixão avassaladora por uma aluna. Mais: sofre de uma devoção por uma relação tragicamente impossível.

Já se disse que o cinema de Christophe Honoré é construído por meio de referências: a nouvelle vague como um todo em “Em Paris”, o cinema de Jacques Demy em “As Canções de Amor”. Sim, é verdade: como boa parte do cinema contemporâneo, Honoré não foge a citações e homenagens.

O que seu cinema tem de melhor, no entanto, não está nessas relações. Há, por exemplo, dois ou três momentos sublimes em “A Bela Junie” que fortalecem a proposta de Honoré: quando Léa Seydoux está em um restaurante, em silêncio, ouvindo uma música, e se sente observada por Chiara Mastroianni; ou quando Seydoux lê um texto em italiano a pedido de seu professor Nemours (Louis Garrel). Os olhares expressivos e ao mesmo tempo misteriosos de Seydoux inserem no filme uma sutileza tão intensa quanto a paixão que une os dois protagonistas.

É justamente nesse ponto que o cinema de Honoré ultrapassa a questão das referências e se consolida como algo vivo, sublime. Temos em cenas como essa algo que apenas o cinema pode oferecer: uma espécie de documentação de algo abstrato, registro de um sentimento íntimo que ao se tornar explícito perde sua aura.

É talvez aqui o ponto chave de um certo cinema contemporâneo, que não se preocupa em admitir relações com um cinema anterior, e que aposta suas possibilidades na esperança de um reencontro. É assim com James Gray, Paul Thomas Anderson, Hou Hsiao-hsien e tantos outros. Esses cineastas que amamos também amam o cinema, e, acima de tudo, sabem que aprofundar uma linguagem é sempre estudar e investigar as suas origens.

Não se poderia dizer que “A Bela Junie” é um grande filme.
Não se poderia dizer que Christophe Honoré é um grande cineasta.

Mas também não seria justo pensar que o nosso tempo não merece grandes filmes, nem grandes cineastas?

Cansados de tanta cinefilia, ao menos o rosto de Léa Seydoux renova a nossa paixão pelo cinema no que ele tem de mais mágico: o indecifrável.

This entry was published on fevereiro 21, 2010 at 4:07 pm. It’s filed under revista taturana and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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