John Cassavetes e a liberdade dos sentimentos

Por Sérgio Alpendre

Cassavetes é um mestre da sutileza. Seus filmes, especialmente os mais pessoais, são cheios de pequenas nuances reveladoras dos personagens, ou, antes, das pessoas. Essas pessoas são retratadas, geralmente, em situações-limite, que fazem com que elas estejam sempre à flor da pele e sejam tão indefiníveis quanto as pessoas que vemos no dia-a-dia, que fazem parte de nossas vidas.

A proximidade com pessoas que conhecemos, ou com as quais convivemos, em maior ou menor grau, já garante uma empatia imediata com seus filmes. Mesmo que de início eles se mostrem um tanto cruéis e misóginos (caso de “Faces” e “Maridos”, principalmente), ou inclinados demais para um sadismo pouco explicado (“Uma Mulher Sob Influência”, “Noite de Abertura”), ou ainda internos demais, compreendidos plenamente apenas por iniciados em artes (“Noite de Abertura” e “A Morte de um Bookmaker Chinês”), ou demonstrem uma soberba irritante (“Gloria”, no qual a personagem título desdenha de um elevador do prédio em que mora o menino pobre), ao final revelam muita riqueza de observação.

Revelam também uma disposição para entender as menores fagulhas de revolta ou de ódio, as mais irrisórias demonstrações de humanidade. Não uma humanidade de manual, com gestos enobrecedores e capacidade de compreensão assombrosa, mas uma humanidade calcada na vivência, no sofrimento e no gozo diários. É gente de carne e osso que aparece diante da câmera de Cassavetes. E é por isso que nos sentimos tão bem ao ver seus filmes. Ou melhor: é por isso que sentimos tanto.

O que dizer de “Sombras”? Nunca vi o racismo ser tratado desse jeito no cinema. Sem lições de moral, sem menosprezar qualquer um dos envolvidos, sem que a família principal deixe de ser o centro das atenções para que se dê espaço e se entenda o outro lado. Porque não é necessária uma explicação do outro lado. Em “Sombras”, um dos longas de estréia mais elogiados de que se tem notícia, as pessoas são reveladas com tamanho aprofundamento que suas características mais repreensíveis são expostas, mas nunca repreendidas, a não ser por quem está dentro do filme. Ou seja, se há repressão, não vem da câmera, e sim de dentro da dramaturgia.

Depois de dois filmes menos pessoais, “A Canção da Esperança” e “Minha Esperança é Você”, em 1964 Cassavetes entraria em um turbulento processo de filmagens para o radical “Faces”, obra-prima que teve 125 horas de material filmado em 16 mm de alto contraste, que se transformou em um filme pungente de enxutos 130 minutos, depois de três anos de montagem e vários outros cortes. A granulação do p&b de “Faces” é algo inspirador de um ensaio. As entranhas óticas reveladas por essa granulação têm tudo a ver com as pessoas desnudadas psicologicamente pelo filme, desde a seqüência inicial, na qual despeito e desprezo dão o tom inicialmente, cedendo lugar à compaixão e à insegurança, sentimentos sempre muito presentes nos filmes do diretor. “Faces” nos revela em enésima potência a habilidade do diretor em tratar da dor e do desespero, como etapas que sempre retornam em um relacionamento. Prova disso é sua meia hora final, com uma decupagem perfeita, que arrepia pela sensibilidade ao mostrar um adultério como estágio para o suicídio moral e sentimental. A frase “tears are happiness” (lágrimas são felicidade) ecoa sempre em meus ouvidos fazendo arrepiar até o menor fio de cabelo.

“Maridos”, o filme seguinte, praticamente sedimentou o esquema de direção de Cassavetes, com muita liberdade ao ator, e duas ou três câmeras para captar todos os movimentos. Depois de filmar muitas horas de material, ele monta o filme respeitando o tempo dos atores e das emoções que fazem aflorar na tela. É um tipo de montagem pouco convencional, com cortes bruscos, ausência completa de didatismo espacial (sem que a nossa noção do espaço seja prejudicada), uma aceleração constante dos acontecimentos contrastando com o tempo cadenciado no interior dos planos. Graças à sua maneira de montar e de pensar a mise-en-scène, além de sua tendência a extrair dos movimentos de câmera e dos tempos de corte verdadeiros retratos de almas, Cassavetes foi reconhecido como um inventor de formas. Graças a essa invenção constante de formas, seus personagens se apresentam com muitas facetas, como num retrato cubista.

“Maridos” também amplifica a noção de que o ser humano é aberto ao mesquinho e ao ardiloso. Os maridos reunidos por causa da morte de um outro amigo aprontam o que podem, humilham mulheres, zombam de pessoas tímidas, avacalham-se uns aos outros, viajam juntos para Londres, mas, no final, voltam para seus lares, para suas vidas regradas, para o tédio de classe média.

Seus filmes posteriores seguiram, às vezes muito de perto, esse padrão de estilo extremamente humano e contraditório formatado com perfeição em “Maridos”. Se “Assim Falou o Amor”, longa que mostra uma nova tendência em seu cinema – a de diminuir o número de protagonistas para no máximo dois – tem uma câmera mais comportada para os padrões cassavetianos, “Uma Mulher Sob Influência” tem a câmera ágil, que percorre os cômodos de uma casa de classe média para entender como o casal que se ama tanto encontra tantas dificuldades na demonstração desse amor. Temos uma das personagens mais cativantes do cinema, Mabel, vivida com imensa paixão por Gena Rowlands. Uma mulher extrovertida, mas insegura, que não sabe o que fazer para agradar o marido e se desequilibra enquanto procura uma forma de satisfazê-lo. É um dos filmes mais ricos e complexos de Cassavetes, e não é difícil ouvirmos risadas nervosas na platéia, de gente que não está acostumada a ver retratos tão escancarados e passionais como o que o filme apresenta. Mabel tenta o suicídio, ameaça bater no marido, nas crianças, mas é uma mulher como poucas, apaixonante mesmo. Seu martírio nos toca, e saímos com ela da sessão, com suas fragilidades, sua espontaneidade. Saímos felizes por termos conhecido pessoa tão encantadora.

“A Morte de um Bookmaker Chinês” e “Noite de Estréia” marcam a volta de um amigo querido ao cinema de Cassavetes: Ben Gazarra, um dos protagonistas de “Maridos”. Ele faz o protagonista de “A Morte”, um dono de clube noturno que para saldar dívidas tem que matar o personagem do título. É um filme ensaio, que versa sobre a passagem do tempo, as decisões que contrastam com o desejo do protagonista e o excitante e decadente mundo noturno, com suas mulheres e homens performáticos, sedentos de carinho, afeição e sexo. “Noite de Estréia” mostra uma atriz (Gena Rowlands) que supera a crise artística por meio do riso. John Cassavetes, demonstrando para quem ainda não acreditava que era um excelente ator, é o agente da alegria, não sem antes atormentar a vida da atriz com sua segurança no palco. A meia hora final de “Noite de Estréia” funciona como um potente energético, seguido de um relaxamento indescritível. Essas emoções, além de chegarem a nós pela epiderme do ator, por suas pulsões no palco dentro do filme e nos arredores, dão a melhor e mais gratificante prova de que seu cinema é capaz de revelar a mais profunda nuance da hesitação humana e, além disso, faz com que enxerguemos as possibilidades de como nos livrar da hesitação. É como um doutor, que nos cura de nossas inseguranças sem que haja qualquer movimento claro em direção a isso, apenas pela demonstração exacerbada e atenta dos sentimentos.

Seu penúltimo filme, “Amantes”, é mais uma perfeita demonstração desse dom inexplicável. Acompanhamos a vida isolada de um escritor que, nos momentos finais, após receber visitas, de ter que lidar com o mundo à sua volta, e até com os impulsos infantis de sua irmã, acena para o público. Um aceno que sugere o desejo de interação entre suas personas e o espectador, e que um personagem, por mais solitário que seja, tem sempre alguma platéia e, portanto, nunca está sozinho. Em “Amantes” está seu verdadeiro testamento cinematográfico, não no filme seguinte, o irregular “Problemas em Dobro”.

Com Cassavetes, aprendemos a ver com outros olhos as pessoas que habitam na tela grande. Aprendemos, com elas, a ser mais humanos, mais abertos ao que temos de negativo, sem que isso nos impossibilite de sermos “do bem”. Os filmes de Cassavetes nos mostram como amar, odiar, desprezar, sentir e provocar dor, chorar, temer, alegrar, sorrir, em suma, eles nos mostram como viver.

Sérgio Alpendre é editor das revistas Paisá e Contracampo

This entry was published on fevereiro 21, 2010 at 2:46 pm. It’s filed under revista taturana and tagged , , , , , , , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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