Por Rodrigo Grota*
Se há um futuro para o cinema, esse futuro tem dois nomes: Robert Bresson.
O cineasta francês, conhecido pelo seu rigor, foi possivelmente o maior transgressor no que se refere a uma linguagem constituída de imagens, sons e silêncio – enfim, o cinema.
Inicialmente próximo ao teatro e à literatura, o ex-pintor aos poucos foi se aproximando das artes plásticas e da música. Seus filmes se tornaram “estados de observação”, concretizando uma profecia de um compatriota, o também notável Jean Epstein: “Representar não é viver. É preciso ser”.
Para Bresson, um filme deve ser composto a partir do branco, da imobilidade e do silêncio. Só as formas educam. A dramatização deve ser evitada- o cinema é contra a eloqüência. Aliás, sob a óptica bressoniana, nem existe cinema, e sim, cinematógrafo (aquele aparelho criado pelos irmãos Lumière e que até hoje nos fascina). Um filme como “Mouchette”, por exemplo, mesmo partindo de uma fonte literária, concentra toda a riqueza do estilo de Bresson. Vejamos como esse estilo é apresentado.
Primeiro ponto – estamos a penetrar na vida: um filme não é apenas uma representação – cinematógrafo e vida se confundem. A trilha sonora, elemento caro a esse cineasta francês, é conduzida de forma pontuada, criando nos ruídos e em seu silêncio uma espécie de música atonal – um sombrio e enigmático comentário sonoro sobre o interior dos personagens. Notem que essa abordagem não se pretende realista – Bresson tem o costume de aumentar e diminuir os sons a seu bel-prazer. O resultado, no entanto, é mais eficaz que uma abordagem pretensamente objetiva no que se refere ao som, pois Bresson nos guia, nos sensibiliza, nos conduz de forma indireta ao mistério do que está sendo apresentado na tela.
Aqui um ponto de contato com Buñuel: sim, o cinematógrafo também pode ser algo em torno do mistério. Nem tudo precisa ser compreendido, e muito menos assimilado (não compreender talvez seja um ato mais enriquecedor, aliás). Em “Mouchette”, desde as primeiras cenas, estamos diante de algo prestes a acontecer, uma atmosfera minuciosamente calculada – os olhares, os mínimos gestos, o que fica e o que vem antes. Bresson é um mestre ao antecipar conflitos e ao mesmo tempo não os resolver. Em alguns momentos, está-se diante de um ato grotesco e ao mesmo tempo embalado por uma movimentação comovente – uma coreografia, quase um balé.
Há, portanto, a exploração máxima do subentendido, daquilo que não é representado por palavras, e, às vezes, nem mesmo por ações concretas. Assim como Dreyer, Bresson segue o que está dentro do personagem – algo que dificilmente pode ser descrito muito menos explicitado. Estamos a observar almas em estado puro – os personagens SÃO aquilo. Para esse cineasta, não existem atores, interpretação, técnicas de representação: o que existe é o MODELO. Nele haverá tudo, menos o falso. O cinematógrafo é a verdade: e nada mais interessa.
Em relação à abordagem visual, todos os enquadramentos são rigorosos, plasticamente bem sucedidos, e curiosamente, extremamente necessários à condução da narrativa. Excluem-se, dessa maneira, a estetização, o chamado “filme de fotografia”, a busca da imagem por ela mesma. Em Bresson, temos apenas o suficiente e nada mais: as imagens se unem a partir de uma lógica própria (não há leis a regularem a união entre um plano e outro). O filme surge como um objeto novo, indecifrável, enigmático e sedutor. (Nada mais elegante, portanto)
Em um primeiro contato, pode-se temer a estética bressoniana. A negação ao falso pode soar como automatismo (um parentesco com os surrealistas?). A ausência de uma música pontuando o sentimento da ação dramática torna o filme um objeto indesejado: Bresson nos exige a purificação – pede que nos esqueçamos, nos livremos de todos os artifícios da decupagem clássica e nos preparemos para algo novo: em suas próprias palavras, o cinematógrafo.
Não saberia apontar precedentes da estética bressoniana. “Las Hurdes”, de Buñuel – uma possibilidade. Mais fácil, talvez, encontrar sucessores: “La Niña Santa”, de Lucrecia Martel, um exemplo notável. Bressane (em seus apontamentos teóricos), Maurice Pialat (outro francês a ser descoberto), Philippe Garrel (um misto de rigor e romantismo cético), Hou Hsiao-hsien – enfim, possibilidades. No caso do cineasta de Taiwan, porém, há uma proximidade com a estética de Antonioni e com as loucuras teóricas e fílmicas de Godard – o que nos dificulta o diagnóstico de sua obra (bem, esse é outro problema: o cinema de Hsiao-hsien renderia um capítulo à parte). Mas assim como nos filmes de Bresson, há, em um olhar menos atento, a impressão de que ao longo da projeção dos filmes de Hsiao-hsien nada parece acontecer – um filme feito sobre o nada (quase um “Seinfeld”, no que se refere ao conteúdo, a 24 quadros). Mas o fato é que Bresson não tem seguidores à altura. E isso realmente não seria possível. Seria necessário o apego absoluto à pintura, o furor silencioso de um jansenista, a rigidez que faz de seus filmes uma verdade, e não apenas uma representação.
Aos interessados, podem ser encontrados em DVD no Brasil “Pickpocket”, “Les Dames du Bois de Boulogne”, “Procès de Jeanne D’Arc”, “Le Journal d’Un Curé de Campagne” e “Lancelot du Lac”. No eMule ou na rede µtorrent (programas de compartilhamento de arquivos na web), podem ser baixadas boas versões de “Un Condammé à Mort s’est Echappé”, “Une Femme Douce”, “Le Diable Probablement” e “L’Argent” – todos com legendas em inglês – mas não se preocupe, caro leitor, em se tratando de Bresson, quase não há diálogos. Resta ainda ao interessado por Bresson a seleção de escritos “Notes sur le Cinemátographe”, uma espécie de suma da estética bressoniana a partir de aforismos e observações pontuadas ao longo de sua carreira. Lançado originalmente em 1975 na França, esse livro ganhou em 2004 uma versão brasileira publicada pela Iluminuras, com tradução e posfácio do cineasta Evaldo Mocarzel. Ao lado de “Esculpir o Tempo”, de Andrei Tarkovski, esse livro é uma espécie de bíblia cinematográfica, instrumento divino ao qual cineastas deveriam recorrer quase que diariamente.
Bem vindos ao futuro – bem vindos a Bresson.
*(este artigo foi publicado originalmente em outubro de 2008 na revista Juliette, n.2, de Curitiba/PR)
