Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes



Por Rodrigo Grota

Havia um tempo em que se podia abrir a página de um periódico e encontrar o seguinte parágrafo: “Domingo passado, durante os primeiros vinte minutos, o Fluminense foi um Otto, foi um estilista. Mas no futebol, como na literatura, convém não caprichar demais. Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. Tudo certo, exato, irretocável, como a redação de Otto. No meu canto, eu via a hora em que perderíamos mais um ponto fatal. E vem a grande verdade: a obra-prima, no futebol e na arte, tem de ser imperfeita. A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão estilista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões”. Essas frases, compostas por Nelson Rodrigues, foram originalmente publicadas no jornal O Globo a 9 de novembro de 1963. Elas traduzem, de forma poética e direta, a visão que o autor tinha diante da vida e do teatro. Essa visão poderia ser perfeitamente aplicada ao que sentimos diante de uma jóia rara como o filme “Aquele Querido Mês de Agosto” (147 minutos, 2008), co-produção franco-portuguesa dirigida por Miguel Gomes (dos filmes “Entretanto” (1999), “Inventário de Natal” (2000), “31” (2003) e “A Cara que Mereces” (2004)).

O conceito de uma obra de arte imperfeita, inacabada, em processo – aberta à participação do público, é talvez a pedra de toque do cinema contemporâneo – pelo menos o cinema que pretende dar continuidade às questões levantadas por Antonioni e Godard (para ficar em dois exemplos do cinema dos anos 60). Em “Aquele Querido Mês de Agosto” temos um retrato singelo e afetivo de diversas aldeias portuguesas – quase um retrato de um país desconhecido. Esse retrato, no entanto, aparentemente um registro no início, se desenvolve cada vez mais próximo a uma abordagem ficcional, em que passamos da verossimilhança efetiva, direta, para uma verossimilhança plausível, do possível. É como se o diretor começasse dizendo “bem, essas pessoas são assim, vivem dessa forma etc”, e aos poucos começasse a duvidar do que acabou de dizer, nos oferecendo pequenos indícios de que tudo ali é bem mais complexo.

Trata-se de um gesto crítico, uma atitude política – uma abordagem ética e ao mesmo tempo estética – a atitude de desconfiar do real a cada instante. Pois o que Miguel Gomes faz é apresentar a imagem em um primeiro momento como se não houvesse mediações, artefatos narrativos que nos separassem da suposta realidade daquilo que está no filme. Aos poucos, de forma explícita e bem humorada, ele insere o próprio mecanismo de realização do filme em sua narrativa, e passa a se aproximar dos personagens cada vez com mais profundidade dramática. Esse processo não se revela a nós espectadores de forma coesa. Há um sentimento de irregularidade que percorre todo o filme – por vezes ficamos enfadonhos diante de tanta repetição e comentário musical, o que ocorre também quando surgem depoimentos de pessoas que vivem nessas localidades portuguesas e que aparentemente chegam até nós com certo exotismo por parte do diretor. No entanto, o que parecia irregular até metade do filme vai ganhando corpo como algo raro, vivo, repleto de felicidade e mistério. Miguel Gomes vai construindo sua narrativa com tanto amor à realidade que constatamos a cada frame sua paixão e devoção por aquilo que está sendo retratado. O filme salta do registro cultural para um drama de costumes com a mesma leveza das canções que são ali apresentadas.

Sem ser sisudo, pedante, muito menos pernóstico, o cineasta lança uma discussão sobre a linguagem ao mesmo tempo em que desenvolve os dramas dos seus personagens. Nesse ato está, pois, toda a problemática do cinema contemporâneo, já que no início do século 21 uma imagem não é apenas uma imagem, e sim todas as questões que surgem coladas a esse símbolo, como autenticidade, identidade, durabilidade, suporte etc. O diretor lança ao espectador não só o drama narrado entre os protagonistas, mas também todas as dificuldades e soluções encontradas para representar essa história. Como se o gesto narrativo do cinema contemporâneo não pudesse estar mais deslocado de uma pergunta que deveria ser anterior: “antes de decidir como narrar, por quê narrar?”. Essa resposta irá nortear toda e qualquer possibilidade estética desse cinema que se inicia agora. Um cinema que já compreende os limites inexistentes entre real e ficção, um cinema que pode chegar ao espectador tanto em uma sala de cinema como de forma individual por meio de um computador ou um player de arquivos compactos.

A opção estética escolhida por Miguel Gomes é aquela que reconhece no cinema uma possibilidade de reencontrar a vida, uma posição ética que ignora o estatuto cinema como o conhecíamos no século 20. Isto faz de “Aquele Querido Mês de Agosto” não só um filme – mas uma experiência de sons e imagens que nos é compartilhada sob a mediação desse diretor. É quase como se pudéssemos retirar os moldes de uma tela e dizer que não se trata mais de uma realidade representada, e sim, de uma realidade outra, um corpo que ganhou vida e se aproxima para nos tocar de uma forma pessoal, única, irregular e imperfeita.

Esse cinema é muito próximo daquilo que fazem cineastas como Hou Hsiao-hsien em “A Viagem do Balão Vermelho” e Olivier Assayas em “Horas de Verão”. Não estamos mais naquela estrutura clássica narrativa com “começo, meio e fim” ou “introdução, desenvolvimento e conclusão” – estamos diante de um devir, de um processo, e nesse fenômeno reconhecemos tanto idéias de Rosselini como de André Bazin – ambos defendendo um cinema mais próximo da enunciação do que da elaboração. Um cinema que se anuncie e se realize diante do espectador – e não apenas um cinema que seja formulado e concebido a priori.

O que “Aquele Querido Mês de Agosto” faz, portanto, é nos devolver o prazer de se deixar guiar por um filme, permitir que uma narrativa seja irregular e ao mesmo tempo coesa em sua organicidade – admitir que não devemos saber tudo diante de um obra, muito menos assimilar todas as suas relações causais e lógicas. O que fica é um sentimento difuso, uma impressão vaga, canções e gestos sutis de uma encantadora realidade porque é assim mesmo que ela foi mostrada: em todo o seu frescor original. Essa postura de Miguel Gomes, aparentemente simples, é algo muito raro, mas que volta e meia um realizador contemporâneo tem a coragem de nos oferecer.

This entry was published on fevereiro 21, 2010 at 7:46 pm. It’s filed under revista taturana and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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