Por Roberta Takamatsu
O primeiro encontro com Cassavetes foi também o primeiro encontro com “A Woman Under The Influence”, filme de 1974.
De início, há Nick (Peter Falk) e Mabel (Gena Rowlands) e todo seu universo familiar particular. Mas estes personagens não nos são apresentados de maneira lenta e gradual. Como prenúncio do que virá, enchem a tela com sua cotidianidade caótica. E talvez aí resida a primeira mágica de Cassavetes: sua capacidade de nos apresentar o conflito criado a partir de pequenos momentos e grandes rompantes da vivência em comunidade.
E há muito ali diante de nós. E de nós. Nosso olhar passa a ser conduzido para dentro dessa família aparentemente normal que se depara com um problema no momento em que a matriarca, Mabel, passa a ter atitudes estranhas aos olhos daqueles que a cercam.
Gena Rowlands conseguiu, por meio desse papel, nos aproximar de uma personagem inquietante. Mabel nos deixa desconfortáveis porque tal como Nick não somos capazes de compreender (e aceitar?) seus acessos e excessos. But, como afirma Nick, “She is not crazy. She is unusual”. Ao mesmo tempo, sentimos compaixão e somos tocados por sua fragilidade diante de um mundo no qual não consegue se sentir inserida.
Não há gestos contidos (na teatralidade das encenações) ou delimitados por tempo e espaço (no passeio livre de uma câmera ágil). O tempo de cada cena transcorre de acordo com o tempo de ação dos atores, sem cortes bruscos, em longos planos, demorando o tempo que precisam demorar.
Assim, dentro do universo sensível de Mabel, há a ação e a reação, a integração e a desintegração, o amor e a alienação – momentos apresentados por sentir e para se sentir. Momentos comuns àquela família e a qualquer outra. E a todas as outras.
Dessa forma, os personagens de Cassavetes são, pois, personagens – e assumem-se como tal. Não há insinceridade nisso – mas uma sinceridade produzida. Nem por isso se tornam menos fortes e complexos. Pelo contrário, ganham vida e pulsão. São mais humanos e conectam-se a nós por assemelharem-se a nós. É nessa compatibilidade agressiva de “A Woman Under The Influence” que entramos em comunhão. Como afirmou Fernando Pessoa, “qualquer indivíduo é ao mesmo tempo indivíduo e humano: difere de todos os outros e parece-se com todos os outros”.
