O filme começa com um registro acidental através de uma câmera que gravava um churrasco familiar, da explosão nuclear que no dia 4 de Julho de 2005 começou a terceira guerra mundial. O que sucede é o Estado norte-americano tolhendo liberdades civis e enchendo as ruas de militares enquanto inunda seus noticiários com novidades sobre o conflito no Iraque e proximidade do fim do mundo, causada pelo aquecimento global e escassez do petróleo como fonte de energia. Eis que aparece o Barão Von Westphalen (Wallace Shawn) com a solução, usando as correntes marítimas como uma fonte inesgotável de energia chamada “Fluid Karma”. O amnésico ator Boxer Santaros (The Rock) é utilizado pela atriz pornô Krysta Now (Sarah Michelle Gellar) em uma trama que envolve a tentativa de reeleição de um senador republicano (Holmes Osborne) cuja filha (Mandy Moore) é casada com Boxer sem que este se lembre do fato.
Informação mediada jorra incessantemente durante praticamente toda a primeira metade do filme. Noticiários televisivos, informações vindas de sites da internet apresentando um universo autônomo e, em certa medida, explicando algumas das nuances de seu funcionamento. Diante de tamanha fugacidade, o registro acaba se tornando a única ferramenta de legitimação. Ainda que a escritura, no roteiro escrito por Jericho Kane e Krysta e a Escritura, no Apocalipse, citado constantemente por Abeline (Justin Timberlake) estejam presentes, a imagem é o paradigma definitivo. É através da imagem que Boxer vai pesquisar seu novo personagem, é através da imagem que os neo-marxistas querem destruir a reputação da polícia, é através de câmeras de vigilância que o estado instaura seu pesadelo Orwelliano de controle. A visão totalizadora é detida apenas por dois personagens. A aspirante a primeira-dama de Miranda Richardson e o ex-piloto vivido por Justin Timberlake. Ela enxerga através de uma sala revestida de monitores; ele através da mira telescópica de uma arma.
A impermanência e a futilidade tanto de informações supostamente críveis e relevantes quanto da cultura na atualidade, estrelas pornôs que intitulam desde programas de variedades até bebidas energéticas, os jargões gangsta (“pimps do not commit suicide”), uma paranóia potencializada servindo de justificativa para a invasão de privacidade bem como o radicalismo niilista de sua contraparte: absolutamente tudo que desfila na tela vira alvo de crítica ou piada. Até mesmo as personas do elenco principal.
Notadamente um esforço de seu autor em construir uma obra mais abrangente e relevante, “Southland Tales” reforça também uma referência (que já existia também em “Donnie Darko”) a David Lynch. Além do retrato pouco lisonjeiro de Los Angeles e da aparição de uma cantora chamada Rebekah del Rio no clímax do filme. Clímax esse que parece uma tentativa desesperada de injetar algum apelo sentimental ao que havia sido até então uma arquitetura bastante cerebral de artimanhas de roteiro e um sem-número de referências. E dá-lhe gente e oferecendo com os braços abertos em sacrifício por algo maior, danças, surpresas sentimentais, lágrimas nos olhos…
A versão que chega às locadoras é 20 minutos menor do que a que foi exibida em Cannes no ano passado. Após o festival, Kelly voltou ao processo de edição durante um ano e meio (!!!) e além da diminuição na metragem, adicionou efeitos especiais e outras informações na intenção de torná-lo mais claro e palatável. Um desejo de documentar a História se construindo em um período que tem como característica exatamente a ausência de historicidade (além de Lynch, Jia Zhang-ke e Robert Aldrich – no que diz respeito a referências, Richard Kelly definitivamente não está mal) levado a cabo justamente por meio da cultura mais pulp e rasa não combina com concessões, transformando essa versão do filme em um curioso caso de “extremismo até certo ponto”.
