manifesto n.i.c.o.l.au.

Por Rodrigo Grota

“a música da luz”.
“a música da luz”.
O improvável.
O fluido.
Orgânico.

Cinema é o tudo que é nada. Mítico.
No século 21, ver não é apenas ver.
Nunca foi.
Ver é ouvir, sentir, imaginar e rever.
Simultâneo.
Fragmento,
Sem forma fixa.
Eternamente alterado.

As pessoas não estão terminadas.
causa e efeito apenas como ilusão.
“na verdade, temos diante de nós um continuum, do qual isolamos algumas partes”.

Não é o cineasta que filma o filme.
E sim, o filme que filma o cineasta.

“só as formas educam”.
“só o real é eterno”.

As obras populares são as que ficarão ao longo dos séculos.
Glauber.

O cinema deve ser livre, ritmo, música, poesia, sem métricas e forma fixa.
Deve ser visto como novo a cada sessão.
A montagem rígida enfraquece.
O corte final denuncia a morte de uma arte: sua última degola.

Cinema sem cortes finais, definitivos – sempre em fluxo.
Releituras, pois o mundo, a gente – tudo muda a cada instante.

Querem um cinema estático, frouxo, frágil, pois reproduzível.
O cinema não pode estar preso a telas fixas.
Ele deve ser projetado aqui dentro, na nossa mente, sob o ritmo da nossa alma.

A câmera é o olho da alma.
A alma dita a montagem.
A montagem é o canto da mente.
E a mente se neutraliza na câmera.

Sem diferenciação de suportes.
Cinema 8-16-35-70. super e mini. Tudo é permitido se a luz estiver a dançar.

As linguagens se confundem, se complementam.
A palavra é imagem.
A imagem nasce do léxico impreciso.
O abstrato dos sons e das cores.
Os traços, as formas.
As linhas.
Tudo em um só cinema: o movimento de dentro.

Todos filmam.
A cada instante.
A cada olhar.
“O corte como um piscar”.
Montagem involuntária.

Cinema como reencontro com uma ordem interna.
Passagem secreta para o mundo anterior.
O que é externo está no interno. Goethe.
A busca por um equilíbrio pessoal.
A montagem já está em nós: basta ouvi-la.

Sem causalidades.
“uma coisa que é visível existe para se ver,
e o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento”.

Ver com os olhos.
Não com o pensamento.
Sentir. Jamais compreender.
Caeiro.

Neutralizar sinapses agradáveis.
O incompleto é real.
O inconstante é verdadeiro.
Ter medo do fluxo é temer o espelho.

Estamos acostumados a fugir de nós mesmos.
Sempre.
Desde os costumes, os hábitos.
Pensamos: “ser humano é ser moral”.
O cinema vem e confunde.
A poesia liberta.
O inconsciente toma conta.
Domina.
A esfera onírica está em nós.
Recusamos.

O homem sabe que está morto e não admite.
Não aceita a vida como um sonho, um filme.
Finge-se desperto e inventa razões.
As razões o tranqüilizam: criam objetivos, desejos, planos.
E assim se segue até que a morte acaba.

Surge então o invisível.
Aquilo que nos foi negado.
Ele sempre esteve acessível.
Mas o homem lógico o recusou.
O homem lógico tinha princípios, valores.

Olhar o caos.
Reencontrar em si o que há neste caos.
Um espelho.
Uma realidade em si.
“a realidade deste reflexo”. Klee.

“Com a contribuição milionária dos erros”.
Não existe gramática no cinema.
Não existem leis.
A frase é verdadeira se estiver de acordo com a alma.
A coragem de se admitir incompleto, morto e inacabado.
Só o fluxo constrói. É livre.
Catalogar como o acesso a um túmulo.

Só na vida está a arte.
E arte é outra.
É vida em si mesma.

O cinema nos liberta do sono.
Olhar o mundo entristece, retira.
A alma passa a ser vã. Solitária.
Encontra um caminho múltiplo.
Todos os caminhos.
Ouve sonoridades sem freqüências.
Cores misturadas.
Sem cores.

A vida em preto-e-branco é assim.
Verdadeira.
Inventamos as cores.
O receptor se enraivece, se vinga.
Tenta a morte do autor.
As cores, o som.
A linguagem que informa.
(Deforma).

Um cão andaluz satisfaz.
É exótico. Símbolo.
A idade do ouro incomoda.
É real. É eterno.

Um filme não pode se repetir.
A vida não se repete.
Ela ilude.
Associações.
Da ilógica plena, inventamos aproximativas que anulam, igualam.
Nasce a lógica e morre a alma.
O pensamento desvia o olhar.
Esconde.
Fecha.
Os olhos agora estão presos.

Para um cinema livre,
indivíduos livres.
Olhos abertos e para dentro,
Montagem da alma.
Ritmo interno.
O equilíbrio é saber-se continuum.
Sem fim.
Sempre.
Cinema.

*manifesto n.i.c.o.l.au
(por um cinema intangível, sem materialidade: da alma)
n.i.c.o.l.au (núcleo de investigação de cinema e outras linguagens audiovisuais)
kinoarte
londrina, paraná, brasil

This entry was published on fevereiro 19, 2010 at 11:10 am. It’s filed under revista taturana and tagged , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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