Na grande maioria dos casos, biopics são protagonizadas por personagens que têm alguma particularidade que justifique a transformação de sua história em filme. Seja uma personalidade histórica, um artista reconhecido por sua personalidade, por seu talento ou por ambos, um especialista proeminente em qualquer área ou alguém que tenha passado por uma situação insólita. Na última hipótese, é comum a atenção se dirigir a como essa pessoa que não possui nenhum preparo ou dom especial se porta frente ao insuperável, especialmente em histórias que envolvam doença e morte. Sim, porque existem poucas instâncias mais legitimadoras de homenagens que a morte.
Jean-Dominique Bauby (o mais uma vez irrepreensível Mathieu Amalric) sofreu um acidente vascular cerebral que o privou de todos os movimentos de seu corpo, exceto o de uma pálpebra e ainda assim escreveu um livro. Se a partir dessa sinopse sua história já se credencia a se tornar um “filme baseado em história real”, também a coloca em uma espécie de segundo escalão. Bauby não é Malcolm X, Muhammad Ali ou Van Gogh. Suas pequenas vitórias não carregarão consigo o peso da História, mas consistirão em adaptar-se a limitações que o transformaram em um espectador de sua própria vida.
Ele não pode falar, mas pode ver e ouvir. A passividade e a inação comandam a partir de então a existência de Jean-Do (como ele preferia ser chamado pelos amigos, e como é chamado contra a vontade pelo seu médico). A identificação com o espectador é reiterada através da corajosa opção de fazer com que uma boa parte – especialmente o começo – do filme seja vista sob a perspectiva de seu personagem principal. Vemos o que Bauby vê. Ele não pode fazer nada a não ser assistir e formular algum pensamento sobre as pessoas que passam em sua frente e o que elas lhe dizem. Não pode evitar que um de seus olhos seja costurado, não pode pedir às pessoas que se coloquem em seu campo de visão, reduzindo sua participação exatamente à mesma de quem assiste ao filme.
Bauby trabalhava como editor-chefe da revista Elle, uma das principais dirigidas ao público feminino. Logo, conclui-se que ele conheça as mulheres, ainda que sua vida profissional não seja retratada senão por uma rápida cena de uma sessão de fotos. O caminho até o sucesso e o quão familiarizado com o universo feminino Bauby realmente estava nos é um mistério, porém, outra tônica de sua nova condição é o fato de Jean-Dominique estar cercado por mulheres (e que mulheres! Marie-Josée Croze, Emmanuelle Seigner, Marina Hands). Somente através da ajuda delas o protagonista consegue ser útil novamente de alguma maneira. Ele vai de produtor de signos produzidos para mulheres a receptor de signos produzidos por mulheres através do sistema adotado por elas (um alfabeto baseado no quão frequentemente as letras são usadas, tornando possível a articulação de palavras e frases através da pálpebra dele), seguindo uma curiosa lógica das biopics, que ascende e absolve através da gradual transformação de um personagem em seu antípoda.
Os homens, a começar pelo próprio protagonista, são sempre desajeitados. Todos sabem que a paralisia de Bauby lhes demanda alguma espécie de mudança de postura, mas nenhum sabe exatamente o que fazer. Nem mesmo o pai, vivido por Max Von Sydow. E o fato de existir imageticamente um pai ao invés de uma mãe talvez explique em alguma instância a opção profissional de seu filho, bem como sua atitude frente às mulheres. Quando a duras penas, por telefone, o pai consegue dizer que está com saudades e chora copiosamente, vemos o máximo de entrega que pode haver entre dois homens, mas a portadora do verdadeiro presente enviado por ele será, como sempre, uma mulher.
A câmera subjetiva aliada a experimentos com o foco dá uma idéia do recorte de mundo visto por Jean-Dominique. O uso do som também procura intensificar as sensações das quais a imagem não dá conta, como a imersão do corpo na água, uma massagem e o som do alfabeto. A voz em off apresenta os pensamentos do protagonista e constitui um dos núcleos do filme, que é o de construir um universo fechado (locked-in, mesmo nome da síndrome que acomete Bauby). Os únicos mecanismos que continuam em funcionamento e dos quais ele pode se aproveitar são sua imaginação e sua memória (embora ele não consiga se lembrar de quando teve o ataque, a não ser perto do fim, outra armadilha das biopics, quando o “motivo” da doença é descoberto e a catarse faz com que tudo se resolva). O olhar é dirigido para dentro, em seqüências oníricas, com a câmera de Janusz Kaminski percorrendo em travellings os mais vastos espaços. Mas a realidade é cruel, e todas as seqüências de memória ou imaginação acabam bruscamente, com um corte seco que interrompe a música e quase sempre sobrepõe uma imagem de Jean-Dominique em forma com o Jean-Dominique paralizado. O chamado à vida restringe.
Além deste movimento centrípeto, a dependência do protagonista é tamanha, que ele só pode viver através dos outros. A alteridade é sua única forma de legitimação. Alguns dos momentos mais tocantes de todo o filme são aqueles nos quais as mulheres olham diretamente para o olho de Bauby (instância receptora máxima, a câmera, o espectador) e se emocionam. Ver um homem em tal estado de fragilidade tornando-se capaz de exprimir aquilo que está incrustado em sua mente torna quase palpável o orgulho que demonstra a terapeuta. A mãe dos filhos (e não esposa, como deixa bem claro o próprio Jean-Dominique) investe na ingrata missão de prestar algum apoio ao pai de seus filhos, embora fique claro o incômodo que ela sente tendo em vista a quantidade de perguntas sobre a amante, que apenas com sua voz pode fazer vir à tona um sentimento puro e verdadeiro carregado de egoísmo. A última mulher da vida de Jean-Dominique é sua redatora, que dentro da estrutura do filme é a mais importante para o protagonista, já que existe somente em função dele. No plano que apresenta a personagem, no qual a editora já havia firmado um contrato com Bauby e está prestes a dispensá-lo de suas obrigações editoriais, ela está sentada, apenas esperando sua hora de entrar em cena, se tornar a ferramenta de expressão para o escritor paralisado. Não sabemos de absolutamente nada de sua vida fora da relação com o personagem principal.
A escritura de Jean-Dominique Bauby se resume a um bando de letras repetidas por mulheres. Não existe um texto a não ser quando lido por uma delas. O que havia acontecido na vida dele até para rechear um livro? Livros geralmente são escritos por estudiosos, por alguém com um olhar aguçado no captar de seu entorno, alguém com habilidade mo trato com as palavras para consagrar seu relato ou sua ficção. Não parece ser o caso do protagonista. Os trechos lidos pela voz em off são bastante ruins, raramente escapando de uma ingênua auto-ajuda ou de comparações bastante óbvias como as que dão título ao filme. A culpa é do próprio Bauby? Talvez. Fato é que ele havia então se tornado o único de seu tipo, como a imagem da virgem que arruinou seu romance extra-conjugal. A mesma virgem que sua terapeuta e tantos outros inundaram com rezas para que um milagre acontecesse. O milagre que venceria a inevitabilidade da morte. Frente a um desafio como esse, a metáfora escolhida por Schnabel parece ter sido a de uma geleira se derretendo e caindo no mar, e seu reverso somente é possível através da arte. Seja do livro de Bauby, seja dos créditos do filme.
