Por Rodrigo Grota
Há filmes que exigem algum tempo para análise.
E há filmes que extrapolam o próprio universo do cinema.
Centrado no personagem Simon, interpretado por Mathieu Amalric (possivelmente o ator francês mais notável entre o cinema contemporâneo), o filme discute, em um primeiro momento, as relações de trabalho em uma Europa globalizada, em que uma multinacional alemã precisa reavaliar os custos de uma filial na França. Simon é convocado por Karl Rose (Jean-Pierre Kalfon) para investigar a saúde mental de um dos profissionais mais exemplares da empresa: Mathias Jüst (Michael Lonsdale), que ultimamente tem apresentado um comportamento dúbio, alternando instabilidade psicológica com longos períodos de depressão. Esperto, porém ainda nutrido de uma mínima dose de humanismo, Simon se aproxima de Mathias de forma discreta, perguntando por um quarteto musical já extinto do qual ele participara. Essa investigação da vida íntima de Mathias fará Simon repensar seu papel na empresa, reavaliando o pedido de Karl Rose e redimensionando a crise de Mathias Jüst.
A primeira questão a ser levantada para o filme aponta para o personagem de Simon: por sua eficiência em avaliar currículos e o desempenho de alguns empregados, ele é considerado um funcionário exemplar. Seus relatórios permitiram que a empresa evoluísse em vários setores. No entanto, ao conhecermos um pouco da vida afetiva de Simon, principalmente sua relação com Louisa (Laetitia Spigarelli), uma questão se torna evidente: que condições Simon tem de pré-julgar e avaliar seus pares na empresa? Por outro lado, à medida que nos aproximamos cada vez mais de Mathias Jüst, passamos a entender um pouco da angústia desse homem que também tem um profundo trauma ligado ao nazismo.
Em um quadro geral, estamos diante de personagens castrados, mutilados, fragmentados sob algum aspecto aparentemente indecifrável. Aos poucos, sob uma espécie de câmera que revela ao não desvelar, aprendemos um pouco sobre cada personagem, mostrando que no fundo todos estão sofrendo por uma questão maior, algo que não pode ser compreendido tão facilmente, muito menos esquematizado. Eis aí a riqueza da abordagem proposta por Klotz: em nenhum momento, ele menospreza ou superestima o seu tema: ele imprime o tom certo a cada plano, a duração exata para cada cena. Há seqüências, por exemplo, como aquela em que Simon se descontrola em uma rave, na qual há um efeito pictórico múltiplo, reluzente, vivo e simultaneamente fúnebre. Simon parece caminhar para uma “perder-se de si mesmo” a cada passo que dá em direção à história da empresa, de Mathias Jüst e de Karl Rose. O passo decisivo dessa jornada é a conversa com um antigo funcionário da empresa: Arie Neumann (Lou Castel), que ele encontra em um subúrbio. A fala final de Neuman, uma espécie de épilogo que problematiza e engrandece a trama do filme tem o peso de um comentário sobre a vida, sobre a humanidade, sobre o “caminho que decidimos trilhar”. Neuman tem inocência e tristeza em seus olhos: uma fadiga motivada pela ausência – supõe-se. (Ele era o instrumentista mais talentoso do quarteto integrado por Mathias Jüst)
Klotz não resolve nenhum problema dos seus personagens centrais: todos seguem em aberto, à deriva, à espera de um grito silencioso que talvez apazigúe alguns dos seus demônios internos. Nesse sentido, o filme se insere em uma linha próxima a de “Nuit et Brouillard” (Noite e Neblina, FRA, 1955), de Alain Resnais. Nos dois casos mencionados, trata-se não apenas de observar como, por meio de uma linguagem rebuscada, pode-se desenvolver um tema complexo e espinhoso, mas, sim, de buscar também nesses filmes uma conexão com o real que não se pretende ingenuamente documento, muito menos profecia. O que “La Question Humaine” evidencia é que se tornar mais “humano”, racional, esclarecido (para usar um termo caro ao Iluminismo) é também dar um passo em direção a um abismo. Nesse abismo, no entanto, a luz aparece apenas aos que ousam “perder-se de si mesmo”.