la graine et le mulet, abdellatif kechiche

Por Artur Ianckievicz

Perto da metade da projeção de “La Graine et le Mulet” (O Segredo do Grão, FRA, 2007), um músico desdentado comenta sobre o personagem principal, Slimane Beiji (Habib Boufares). A fala do músico é basicamente um resumo de tudo o que o filme havia nos mostrado até ali. Por esta amostra, já é possível constatar que a fala desta vez não ocupa um papel de marca distintiva ou reafirmação identitária, como acontecia no filme anterior de Kechiche (a obra-prima “L’Esquive”, de 2003), também não serve somente para fazer com que a trama evolua, como professam alguns manuais de roteiro. Aqui, o discurso orienta a própria mise-en-scène. Os planos mais abertos, grosso modo, são utilizados para raccords (ainda que algumas bonitas composições mostrem Slimane pilotando sua mobylette pelo porto de Sète) e ambiências. Majoritariamente, o personagem que fala ocupa o quadro todo, e boa parte do tempo em close. Captar toda informação que sai da boca do emissor, as nuances de sua fala, suas mais discretas expressões faciais, premiar com destaque total o que cada um dos inúmeros personagens que orbitam o protagonista tem a dizer é o ponto de partida do filme.

Em um filme no qual os personagens falam quase ininterruptamente é uma opção corajosa compor um protagonista lacônico e que quase não demonstra emoções. Após deixar um trabalho de anos consertando barcos, Slimane resolve abrir seu próprio restaurante… em um barco. O diferencial de seu negócio seria o destaque do menu: o cuscuz (que tem como ingredientes o grão e o peixe do título original), prato que é a especialidade de sua ex-mulher, e que sua atual namorada não consegue acertar. Outro achado do roteiro é transformar o que seria mais um retrato do quão difícil é a vida e quão complexas são as relações de trabalho dos imigrantes e seus descendentes na França contemporânea em uma cruzada quixotesca em direção à construção de um legado. Slimane sabe que não tem muito tempo pela frente, e a tentativa – mais sonho do que projeto – parece refletir um desejo de potencializar uma comunhão realizada através das refeições em família.

Um almoço na casa da ex-mulher de Slimane que mobiliza toda sua família exceto ele próprio evidencia o quão capital é na narrativa o papel agregador que as refeições familiares detêm. É também a seqüência que disseca o método de trabalho de Kechiche. Notadamente filmada com mais de uma câmera, momentos da mais rara espontaneidade são captados enquanto uma série de assuntos é abordada, como geralmente acontece nos tradicionais almoços de domingo. Com um ar documental, a seqüência se estende desde a chegada dos convidados, passando pela preparação da comida e principalmente o ato de comê-la, é claro. O microcosmo formado ao redor da mesa em nenhum momento reivindica para si a posição de metáfora, sendo apenas um encontro um tanto atabalhoado de dezenas de pessoas que têm relações e sentimentos bastante complexos tanto em relação umas com as outras como com o fora de quadro. Rápidos olhares, sorrisos e movimentos espontâneos rendem pequenas jóias de cinema através das câmeras de Lubomir Bakchev ( o mesmo de “L’Esquive” e do recém-lançado em DVD “Dois Dias em Paris”, de Julie Delpy).

“O Segredo do Grão” também apresenta sua cota de problemas. Ainda que um ar de “vida e nada mais” permeie a narrativa, algumas armações de roteiro são evidentes. Uma das primeiras cenas, com um dos filhos de Slimane transando no barco onde trabalha como guia turístico, é filmada com tamanha importância que fica claro que aquele ato vai gerar alguma grave conseqüência mais adiante. O componente político-social também aparece mal-ajambrado, reiteradamente e de maneira didática. O que não torna o filme menos digno de interesse.

Ainda que a habilidade do diretor para a imersão em um universo bastante específico impressione, a principal força de “O Segredo do Grão” atende pelo nome de Hafsia Herzi. No papel de Rym, enteada de Slimane, a garota injeta uma energia indescritível cada vez que aparece em cena. São dela os melhores momentos de todo o filme, em especial a cena em que ela tenta convencer a mãe a ir a uma espécie de avant-premiere destinada a recolher fundos para a finalização do restaurante. A jovem, em um esforço tocante, desfila todo seu repertório argumentativo frente à mãe, que ouve sentada diante do espelho, exalando feminilidade. Indo da súplica à ofensa, passando pela quase chantagem emocional a cena encapsula todo um conflito de gerações, a relação algo competitiva que as mães às vezes têm com as filhas quando estas atingem uma certa idade, a constatação de que a exemplo do que ocorria no filme anterior de Kechiche, as jovens é quem têm a resposta. A presença cênica de Rym é tão intensa que por meio dela o corpo passa a rivalizar com o verbo. Seja colocando um tailleur em uma ida à financiadora ou com uma roupa de dançarina de dança do ventre, ela atualiza sua figura de modo a ajudar Slimane.

É exatamente na seqüência da dança do ventre que o corpo franzino de Slimane e o curvilíneo de Rym se oferecem em um misto de sacrifício e luta contra um inelutável destino, onde a palavra, que havia regido as ações até ali, falha e os corpos atestam uma união pela escolha e não pelo determinismo do sangue. A filiação e a atração-repulsão entre várias dicotomias (ex-mulher e amante, franceses e imigrantes, juventude e velhice) reunidas no barco-restaurante atinge o ponto de ebulição enquanto em terra firme o esforço aparentemente em vão vai consumindo o protagonista. A escolha pelo final em aberto deixa menos um gosto de não saber o que acontece depois do que a constatação de que dentro do quadro, do recorte de mundo escolhido pelo cineasta, a entrega e a sensualidade de Rym podem fazer o tempo parar.

This entry was published on fevereiro 19, 2010 at 11:08 am. It’s filed under revista taturana and tagged , , , , , . Bookmark the permalink. Follow any comments here with the RSS feed for this post.

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