Perto da metade da projeção de “La Graine et le Mulet” (O Segredo do Grão, FRA, 2007), um músico desdentado comenta sobre o personagem principal, Slimane Beiji (Habib Boufares). A fala do músico é basicamente um resumo de tudo o que o filme havia nos mostrado até ali. Por esta amostra, já é possível constatar que a fala desta vez não ocupa um papel de marca distintiva ou reafirmação identitária, como acontecia no filme anterior de Kechiche (a obra-prima “L’Esquive”, de 2003), também não serve somente para fazer com que a trama evolua, como professam alguns manuais de roteiro. Aqui, o discurso orienta a própria mise-en-scène. Os planos mais abertos, grosso modo, são utilizados para raccords (ainda que algumas bonitas composições mostrem Slimane pilotando sua mobylette pelo porto de Sète) e ambiências. Majoritariamente, o personagem que fala ocupa o quadro todo, e boa parte do tempo em close. Captar toda informação que sai da boca do emissor, as nuances de sua fala, suas mais discretas expressões faciais, premiar com destaque total o que cada um dos inúmeros personagens que orbitam o protagonista tem a dizer é o ponto de partida do filme.
Em um filme no qual os personagens falam quase ininterruptamente é uma opção corajosa compor um protagonista lacônico e que quase não demonstra emoções. Após deixar um trabalho de anos consertando barcos, Slimane resolve abrir seu próprio restaurante… em um barco. O diferencial de seu negócio seria o destaque do menu: o cuscuz (que tem como ingredientes o grão e o peixe do título original), prato que é a especialidade de sua ex-mulher, e que sua atual namorada não consegue acertar. Outro achado do roteiro é transformar o que seria mais um retrato do quão difícil é a vida e quão complexas são as relações de trabalho dos imigrantes e seus descendentes na França contemporânea em uma cruzada quixotesca em direção à construção de um legado. Slimane sabe que não tem muito tempo pela frente, e a tentativa – mais sonho do que projeto – parece refletir um desejo de potencializar uma comunhão realizada através das refeições em família.
Um almoço na casa da ex-mulher de Slimane que mobiliza toda sua família exceto ele próprio evidencia o quão capital é na narrativa o papel agregador que as refeições familiares detêm. É também a seqüência que disseca o método de trabalho de Kechiche. Notadamente filmada com mais de uma câmera, momentos da mais rara espontaneidade são captados enquanto uma série de assuntos é abordada, como geralmente acontece nos tradicionais almoços de domingo. Com um ar documental, a seqüência se estende desde a chegada dos convidados, passando pela preparação da comida e principalmente o ato de comê-la, é claro. O microcosmo formado ao redor da mesa em nenhum momento reivindica para si a posição de metáfora, sendo apenas um encontro um tanto atabalhoado de dezenas de pessoas que têm relações e sentimentos bastante complexos tanto em relação umas com as outras como com o fora de quadro. Rápidos olhares, sorrisos e movimentos espontâneos rendem pequenas jóias de cinema através das câmeras de Lubomir Bakchev ( o mesmo de “L’Esquive” e do recém-lançado em DVD “Dois Dias em Paris”, de Julie Delpy).
“O Segredo do Grão” também apresenta sua cota de problemas. Ainda que um ar de “vida e nada mais” permeie a narrativa, algumas armações de roteiro são evidentes. Uma das primeiras cenas, com um dos filhos de Slimane transando no barco onde trabalha como guia turístico, é filmada com tamanha importância que fica claro que aquele ato vai gerar alguma grave conseqüência mais adiante. O componente político-social também aparece mal-ajambrado, reiteradamente e de maneira didática. O que não torna o filme menos digno de interesse.
Ainda que a habilidade do diretor para a imersão em um universo bastante específico impressione, a principal força de “O Segredo do Grão” atende pelo nome de Hafsia Herzi. No papel de Rym, enteada de Slimane, a garota injeta uma energia indescritível cada vez que aparece em cena. São dela os melhores momentos de todo o filme, em especial a cena em que ela tenta convencer a mãe a ir a uma espécie de avant-premiere destinada a recolher fundos para a finalização do restaurante. A jovem, em um esforço tocante, desfila todo seu repertório argumentativo frente à mãe, que ouve sentada diante do espelho, exalando feminilidade. Indo da súplica à ofensa, passando pela quase chantagem emocional a cena encapsula todo um conflito de gerações, a relação algo competitiva que as mães às vezes têm com as filhas quando estas atingem uma certa idade, a constatação de que a exemplo do que ocorria no filme anterior de Kechiche, as jovens é quem têm a resposta. A presença cênica de Rym é tão intensa que por meio dela o corpo passa a rivalizar com o verbo. Seja colocando um tailleur em uma ida à financiadora ou com uma roupa de dançarina de dança do ventre, ela atualiza sua figura de modo a ajudar Slimane.
É exatamente na seqüência da dança do ventre que o corpo franzino de Slimane e o curvilíneo de Rym se oferecem em um misto de sacrifício e luta contra um inelutável destino, onde a palavra, que havia regido as ações até ali, falha e os corpos atestam uma união pela escolha e não pelo determinismo do sangue. A filiação e a atração-repulsão entre várias dicotomias (ex-mulher e amante, franceses e imigrantes, juventude e velhice) reunidas no barco-restaurante atinge o ponto de ebulição enquanto em terra firme o esforço aparentemente em vão vai consumindo o protagonista. A escolha pelo final em aberto deixa menos um gosto de não saber o que acontece depois do que a constatação de que dentro do quadro, do recorte de mundo escolhido pelo cineasta, a entrega e a sensualidade de Rym podem fazer o tempo parar.
