
Por Artur Ianckievicz
Ciro (Julio Andrade) mora em um apartamento onde a mobília praticamente não existe. Ao invés de cama, colchão. Nada de sofá, televisão, nem mesmo telefone, como descobrimos após Marcela (Tainá Muller) – que ele conhecera na noite anterior – pedir-lhe o número. Uma renúncia às posses materiais e ao contato mais aprofundado com outras pessoas denota uma atitude algo adolescente, até pelo fato de não ficar claro o quanto dessas opções deriva da inação. O desprendimento e a misantropia refletem mais despreparo que desinteresse em lidar com uma série de questões que a iniciação à vida adulta inevitavelmente traz consigo. Uma existência povoada por momentos bastante fortes, porém sem uma perspectiva durável de futuro. O melhor “amigo”, como o próprio Ciro o define, é um cão, com quem o rapaz obviamente se identifica tanto por enxergar no animal muito de si mesmo.
Ainda que o trabalho esparso como tradutor e revisor do idioma russo indique erudição e um forte trabalho intelectual do protagonista, o corpo é a medida principal do filme de Beto Brant e Renato Ciasca. É na intersecção com outros corpos, e não com suas mentes que a narrativa acompanha Ciro. Sejam essas intersecções fruto de insistência, como a de Marcela em continuar a vê-lo; de acidente, como o motoboy que atropela a moça e depois convida o casal para um jantar em sua casa; de inevitabilidade, nas refeições familiares, ou por uma vaga identificação, com seu Eliomar, o porteiro que dedica seu tempo livre à pintura.
O corpo é o que dá início à relação entre Marcela e Ciro – pelo menos filmicamente, já que a primeira cena é uma transa dos dois na sacada do apartamento dele – e também dá a noção de finitude. Marcela é modelo. Sua profissão depende do fato de seu corpo ser bonito, e os flagelos sofridos por ele (o corpo dela) pontuam a narrativa. Como o já citado atropelamento que lhe fere a perna, porém traz as presenças de Lárcio e sua esposa. Ou quando uma quimioterapia que se faz necessária após a descoberta de um linfoma (descoberta essa que só foi possível através de uma biópsia, outra cisão do corpo), preconizando uma separação definitiva.
Qual seria a função da arte frente a essa presença preponderante do físico? A questão se posa tanto em relação à literatura de Ciro, quanto para a pintura de seu Eliomar, quanto para o cinema de Brant e Ciasca. Em um determinado momento, Marcela pede para Ciro recitar um poema para ela. Ele ensaia versos banais, retendo-se nos elogios a seu corpo. Ela devolve com outro pedido: “Olhe dentro da minha alma”. Coisa que, aparentemente provém de seu Eliomar, que ao presentear Ciro com uma pintura, diz que Marcela era “luz”. Em outra cena, o personagem principal se submete a uma endoscopia, mostrando literalmente suas entranhas. A sensibilidade sub-epidérmica engloba tanto valores artisticamente nobres, como a representação de um sentimento eternizado em imagem (seja no quadro do porteiro, seja no próprio ato de filmar os atores) quanto uma série de vísceras que sofrem os efeitos de abusos físicos e emocionais. Nem um cinema de investigação psicologizante, nem um retrato de seres que se limitam a responder a seus estímulos e satisfazer suas necessidades corpóreas.
A mesma relação de atração-repulsão que os personagens têm entre si ocorre entre estes e a câmera. Se em momentos de um romantismo mais idílico entre o casal protagonista ou em uma emocionada conversa de bar entre Ciro e Lárcio, o rosto dos atores preenche todo o quadro, em outras oportunidades a câmera se coloca respeitosamente à distância, compondo em plano médio, como na cena em que Ciro telefona do orelhão para o hospital buscando saber notícias de Marcela. Vale ressaltar que é um dos melhores momentos de atuação de Julio Andrade durante todo o filme, isso em uma cena na qual quase não se vê seu rosto.
Outra cena que merece registro é a confissão do pai de Ciro sobre um período no qual este perdeu o negócio e quase também a família por conta do vício em cocaína. Ao invés de uma lição de moral, o relato vem como um desejo quase palpável de conexão com o filho.
Se ao final vemos um Ciro que trocou a tradução pela venda de livros, não é com um conformismo amargo. Certa concessão para continuar perto do que mais ama talvez seja o mais próximo de um “aprendizado” pelo qual passa o protagonista, e se uma parte da vida que foi usufruída literalmente na carne precisa ser enterrada junto com o cachorro, o fim sorri com a possibilidade de um contracampo (aliás, a única cena em plano/contraplano é exatamente a última) que traga de volta a luz.
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