A história de Michel Gondry é interessante para entendermos um pouco o seu universo. Ele nasceu em Versailles, Franca, numa família com integrantes inventores e músicos. Quando criança queria ser pintor ou inventor. Nos anos 80 estudou numa escola de arte em Paris, onde com alguns amigos formou a banda pop Oui-Oui. Gondry, além de baterista da banda, também dirigia os videoclipes. O grupo durou até 1992, mas um de seus clipes foi visto por Björk, que adorou o universo particular de Gondry com referências à cultura pop dos anos 60. A parceria durou seis videoclipes e vários prêmios. Também dirigiu clipes para Massive Attack e Chemical Brothers. Foi premiado por vários comerciais para a Levi’s, Coca-Cola, Nike, etc. E então veio Hollywood e o chamou para dirigir “Human Nature”, um dos primeiros roteiros para longa-metragem de Charles Kaufman.
“Human Nature” traz todo o universo delirante e inventivo de Gondry para o cinema, todos os seus efeitos especiais caseiros (feitos pelo próprio diretor!), as influências dos videoclipes anteriores (principalmente “Human Behaviour”, com Björk), os sonhos se misturando com a realidade. Enfim, foi o casamento perfeito para os talentos de Kaufman e Gondry. Ou bem, seria… justamente pela quantidade de cenas delirantes e clima artificial a história foi esquecida e o filme resultou irregular. Em todo o caso, chamou a atenção para o talento do diretor, e logo depois a parceria foi reeditada com “Eternal Sunshine of Spotless Mind”. As características permaneceram, mas a história foi extremamente bem conduzida, e somadas com a inspirada performance do elenco o filme virou um clássico instantâneo, fez sucesso e até ganhou o Oscar de melhor roteiro original.
Em 2005, Gondry dirige o pouco visto “Block Party” para o comediante e músico Dave Chappelle. O filme é uma apresentação num palco de uma série de sketches da série de TV do comediante e tem shows de vários amigos, incluindo o ator Mos Def, os músicos Bilal e Kanye West, e a apresentação dos Fugees depois de sete anos afastados. Logo depois, escreve e dirige “The Science of Sleep”. Com um roteiro confuso e um personagem principal equivocado e sem carisma nenhum, o erro de “Human Nature” se repete em maior proporção – o que aparece são novamente as invenções visuais do diretor. Mesmo assim, o filme tem seus seguidores e o visual realmente impressiona.
E justamente por essa experiência visual única de um universo pessoal que os filmes de Gondry sempre são muito aguardados. Afinal o cinema é puramente visual, não? Nem sempre. Uma história ainda precisa ser bem contada ou pelo menos os personagens desta história precisam se comunicar com o público… de alguma maneira. Quando a sinopse de “Be Kind Rewind” foi divulgada, a expectativa aumentou ainda mais. Dois amigos resolvem refilmar eles mesmos alguns filmes de sucesso de Hollywood quando um deles apaga as fitas VHS de uma locadora por acidente.
Essa idéia central e genial da vazão à criatividade do diretor para brincar de ser inventor e explorar as técnicas básicas de cenografia e, na verdade, as técnicas do início do cinema. Assim dá para sentir na tela o prazer do diretor em “brincar” de fazer cinema, como nas cenas do primeiro filme “sweded” – como a dupla chama as suas refilmagens – , “Ghostbusters”. Desde a técnica caseira de rodar o filme em seqüência, sem montagem futura, até a produção das cenas na biblioteca quando os caça-fantasmas exorcizam o seu primeiro fantasma, tudo é hilário. E no início os filmes vão se sucedendo, como a cópia de “Hora do Rush 2” e o ensaio para “Conduzindo Miss Daisy”- e o filme flui bem.
Mas aí acontece um dos dois grandes problemas de “Be Kind Rewind”: os filmes “sweded” vão ficando mais curtos e as cenas mais raras, dando lugar à trama principal do filme, que é o outro problema. Infelizmente fica visível na tela que a idéia principal do filme começou a partir dessa refilmagem das fitas apagadas. E para se chegar a essa refilmagem uma trama teve que ser inventada e até costurada, para fechar todo o pacote. A trama principal e frágil gira em torno do pianista de jazz Fats Waller e seu suposto nascimento no prédio onde hoje funciona a locadora de vídeo. Uma empreendedora vila capitalista quer fazer um novo projeto comercial no quarteirão onde fica a loja e o dono idealista vivido por Danny Glover (sempre impondo respeito em seus papéis) não aceita, mas não possui o dinheiro suficiente para a reforma do prédio e assim conseguir mantê-lo.
Esse início se arrasta até a entrada das fitas “sweded”. Como disse anteriormente, a alma do filme está aqui e foi isso que o público cativo de Gondry estava esperando, mas tudo dura em torno de 40 minutos. Algumas excelentes idéias de refilmagens que poderiam ser melhor exploradas aparecem por apenas alguns segundos como “Quando Éramos Reis”, “King Kong”, “Homens de Preto” e principalmente “2001’, na famosa cena da estação espacial girando sobre o próprio eixo. Excelente! Mas tudo passa rápido demais e o filme retoma a idéia principal. Com uma reviravolta final a história ainda ganha um ar Frank Capra com toques de “Cinema Paradiso”. Estas mudanças de ritmo e de humor vão tirando a paciência do espectador, que não entende por quê o filme que ele estava vendo e gostando até o momento sumiu. Portanto a sensação que “Be Kind Rewind” passa é a de um filme dentro de outro: na verdade, um delicioso curta-metragem dentro de uma história simplista com toques sentimentais.
Apesar de Gondry ter nos decepcionado, ele fez um excelente trabalho no site do filme. Em http://www.bekindrewind-themovie.com/, na seção trailers, os filmes “sweded” podem ser conferidos além de um excelente trailer “sweded” do próprio “Be Kind Rewind” feito pelo próprio Gondry. Além da criatividade do próprio site que vale a pena ser explorado.
